VIVA BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS
E SUA LITERATURA!
A obra de Bartolomeu Campos de Queirós já é um clássico na literatura brasileira. Bartolomeu tem o poder de encantar gente de tudo que é idade com sua prosa poética. Escritor e educador, ele nasceu em Papagaio, Minas Gerais, em 1944, publicou mais de 50 livros e é um dos criadores do Movimento Por Um Brasil Literário (http://www.brasilliterario.org.br/), que luta para transformar o acesso ao livro num direito de todos os brasileiros. Bartolomeu foi um autor premiadíssimo, mas na verdade ele é que sempre nos premiou. Querem ver?
Eu vi, um dia, o mar, no lugar onde ele está. Pisei manso sobre as águas para não quebrar o espelho. Provei seu gosto de sal – definitivo batismo. Reparei suas areias lavadas, e a paixão me falou: há mais azul depois do mar. E o meu mar de mentira sempre foi maior que o mar de firmes verdades.
Sempre vou ser um desejo, se vivo ausente do mar. Não chega a ser marinheiro quem nasce longe de lá. As águas são muito abertas para quem, por sobre veredas, aprendeu a caminhar.
Nascendo sobre um mar de montanhas, não se chega a navegar.
(Trecho final do livro AH!Mar, RHJ Editora.)
A casa ficou maior e cheia de silêncio. Tudo parecia se esforçar para não acordar quem deveria dormir por toda a vida. O vazio ocupou, tanto, o quarto de minha mãe que meu pai dormia na beiradinha da cama, como se empurrado pelo novo morador. E o vazio não nos deixava tocar em nada. Tudo – santo na parede, latas de talco, vidros de perfume, caixinhas de desmazelos, imagem na beira da cabeceira – tudo ficava no mesmo lugar por exigência do vazio. No nada cabe tudo. Até a poeira marcava a retirada de qualquer pertence.
Eu atravessava a casa passando pelo corredor e me assentava debaixo da mangueira. A sombra das folhas bordava no chão um véu sobre a terra. Só as formigas continuavam, em procissão, carregando nas costas a comida, em caso de algum imprevisto. O arrependimento de ter comido coração fez arrepiar meu corpo inteiro.
(Trecho final do livro LER, ESCREVER E FAZER CONTA DE CABEÇA, Prêmio Hors-Concours FNLIJ – 1996 e Prêmio Monteiro Lobato Brazilian Book Magazine/FBN – 1997. Global Editora.)
Meu avô não deixou herança a não ser sua história. Sobraram os ternos de linho engomados no guarda-roupa, a mala com as pílulas, a cadeira de balanço embalando todo o silêncio do mundo. Mas para mim, depois de passar de mão em mão, restou seu olho de vidro, agora sobre minha mesa, dormindo num pires. E sempre que passo diante dele repito: olho de vidro não chora. Olho de vidro brilha por não ver. Nunca vou saber o que o olho de vidro do meu avô não viu.
(Trecho final de O OLHO DE VIDRO DO MEU AVÔ, Prêmio Altamente Recomendável FNLIJ – 2004, Prêmio O Melhor Para O Jovem, “Hors Concours”, FNLIJ 2004, Prêmio Nestlê de Literatura 2005, Prêmio Jabuti 2005. Editora Moderna.)
Dois. Desconheço o depois de minha despedida. Não se caminha sobre a sombra ao entardecer. Ignoro se o remorso nos preservava em suas memórias, ou se a paixão lhes presenteou com o esquecimento. A culpa é relativa ao tamanho da memória. Esquecer é desexistir, é não ter havido. Ao me interrogar se tomate ainda há, não me fecho em silêncio. Confirmo que minha primeira leitura se deu a partir de um recado rabiscado pela faca no ar cortando em fatias o vermelho.
(Trecho final de VERMELHO AMARGO, Editora Cosac Naify.)