Mostrando postagens com marcador CONTOS.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CONTOS.. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 8 de junho de 2011

TE DOU MINHA PALAVRA

A ORQUÍDEA TATUADA, DE PEDRO VELUDO

Pedro Veludo está sempre viajando. Se não é pelas terras do planeta, é pelas palavras desse mundo de papel e de babel. Tanto num quanto noutro, Pedro não faz turismo, ele procura conhecer os lugares por onde passa e segue pensando neles quando os transforma em texto. É o que ele faz em seu novo livro, A ORQUÍDEA TATUADA, com registros, impressões de viagem, crônicas, contos e pequenos ensaios sobre suas mais recentes andanças. Com vocês mais um pouco da prosa de Pedro.

O ÚLTIMO ABRAÇO

Porto, Portugal.

Aos seis anos fui com minha mãe viver em outro país e nunca mais vi meu pai que, meia dúzia de anos mais tarde, veio a falecer.
Quase trinta anos depois voltei à sua cidade, em busca do paradeiro de um tio, irmão dele. Depois de muito procurar e quase desistir, consegui o endereço da repartição onde ele trabalhava.
Entrei. Olhei um a um os funcionários, avancei sem hesitações e parei em frente à mesa dele.
- Tio, eu sou o filho mais velho de seu irmão Henrique.
Por um instante ele me encarou e, aparentemente sem surpresa, baixou o rosto para a pequena gaveta à direita, na sua mesa, de onde retirou um envelope:
- Estava à tua espera. Isto é para ti.
Eram duas fotos, a certidão de nascimento e a carteira de identidade de meu pai.
Fechou a gaveta, e me olhou fixo. Depois se levantou devagar, deu a volta à mesa e me abraçou. Correspondi ao abraço e assim ficamos, em silêncio, durante algum tempo. Aos poucos o silêncio estendeu-se a toda a repartição. Os funcionários deslizavam na ponta dos pés nos olhando de soslaio, à distância conveniente. Em absoluto silêncio, como se não quisessem perturbar o que talvez adivinhassem ser o último abraço de meu pai.


PORTO QUE É

Torre dos Clérigos, Porto, Portugal.

Subo pela segunda vez à Torre dos Clérigos, no Porto.
A primeira foi há muitos anos com meu pai. Lá, no andar mais alto, no sino maior, ele escreveu, em vermelho, os nossos nomes. Escreveu... ou disseram-me que ele escreveu, ou sonhei que ele escreveu... ou quis muito que ele tivesse escrito.
Porto que me lembra pai, lembra frio e broa. Lembra cozinha da avó com cafeteira de cevada ao fogo.
Porto, meu “pequeno” Porto, da Praça dos Poveiros e Jardim de São Lázaro, onde eu prendia folhas secas apanhadas do chão, com palitos de fósforos, formando coroas que punha na cabeça e pendurava ao pescoço, desfilando feito herói de mim mesmo.
Porto que lembra pontes, as quais, ao atravessá-las, entro em recantos de mim que de tão escondidos e escuros não consigo ver se as lembranças lá guardadas são ou não acontecidas: se me foram contadas ou não, se as imaginei, se as misturei com outras ou são antigas fotos que não sei onde estão, se são frases ouvidas de não sei quem, se sonhos, se pensamentos...
Porto que o passar por tuas ruas me traz desassossego, como se a qualquer momento fosse encontrar uma marca, um sinal de mim, ou como se eu fosse me encontrar ao dobrar uma esquina.
Porto que lembra o que não sei saber se foi.


PORTO QUE NÃO É MAIS

Porto, Portugal.

Volto ao Porto, à minha cidade que não é mais minha, de meu país que não é mais meu, à casa de meus avós que não são mais.
Na pequena, outrora enorme, sala, agora muda de gestos e vozes, montículos de serragem de cupim sob os móveis denunciam que há muito ela não é varrida. Separando-a do cubículo de cinco metros quadrados, onde eu mais sonhava que dormia, a porta de vitral colorido está intacta.
Tudo é silêncio.
Desço um degrau, o assoalho de madeira range, e estou na cozinha. Sento-me e passo os dedos pelo tampo da mesa, procurando em vão entre as marcas do tempo algum sinal, alguma lembrança. E me vem um gosto amargo ao peito do que eu não mais lembro, de minha memória atropelada. Da cafeteira sobre o fogão, chega-me o aroma forte a cevada.
Um ruído vindo do quarto de meus avós faz-me prender a respiração. É meu avô que amola a lâmina de barbear, friccionando-a pacientemente, de um lado e do outro, no interior de um copo. Ao seu lado, em silêncio, minha avó vigia a galinha que está prestes a pôr, num minúsculo galinheiro pendurado do lado de fora da janela. “Tem-se que tirar logo o ovo”, ela me dizia, “senão ela o come”...
Aproximo-me do quarto deles, pé ante pé: refletida no espelho do guarda roupa a imagem dele penteia os longos cabelos brancos dela. Na mesa de cabeceira, a gramática de língua francesa, que ele todas as noites por anos a fio estudava antes de dormir. Je suis, tu es, Il est, nous sommes... e adormecia antes da segunda pessoa do plural. “É preciso aprender francês”, ele me dizia.
Saio, como que saindo de mim próprio, com a impressão de que o tempo passou muito rápido.
Dou dois passos escada abaixo e olho para cima, a tempo de ver minha avó me acenando um adeus, abanando um lenço branco, como se ela estivesse longe.
Ou como se eu estivesse muito longe.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

A CRIANÇA

A criança estava ali, adormecida, e eu andava muito lentamente para não acordá-la.

Aquele estado de torpor, aquela nuvem diante dos olhos, aquele lugar quase que suspenso no ar. Era um sonho. E a criança adormecida era eu mesmo.

Tentei despertá-la com ruídos casuais. Me aproximei, toquei em seu braço coberto pelo lençol, toquei sua mão, sacudi.

Então me dei conta. A criança estava morta.


A DOR

Ela sorriu, tirou o guardanapo do colo, chamou o garçom, pediu mais um vinho e disse que sim.

Eu estendi minha mão esquerda até tocar seu braço, aquele braço que tantas vezes, disse calmamente que ia embora para sempre, me levantei e caminhei lentamente para fora do restaurante e do seu sorriso.

É o que me dói até hoje.

TORNEI-ME UM

Na bebida busco esquecer, mas nem sempre foi assim. Eu buscava só me divertir. Esquecia também, mas sem querer. As noites de vodka. Às vezes acordava e não sabia como tinha chegado em casa. Depois comecei a acordar e ver que não tinha chegado em casa. Voltava com flores e presentes. Ela não reclamava. Continuávamos nos amando.

Um dia acordei todo ensanguentado. Tomei um puta susto. Enquanto verificava se não estava ferido, gritava por ela. Mas ela não me respondia. Levantei nervoso, gritando mais alto e assim que saí da cama tropecei e caí. Por cima dela. Estava deitada no chão, os pés pra debaixo da cama, o rosto cheio de sangue e a cabeça aberta, com os cabelos empastados e uma poça em volta. Aquelas coisas que a gente só vê em filme, só que muito pior, é claro.

Foi o pior dia da minha vida? Não sei. Limpei tudo, deixei chegar a madrugada e enterrei o corpo no quintal. De novo aquelas coisas todas de filme. E como em todo filme, eu seria descoberto. Não sou criminoso, não sabia fazer aquilo, certamente devo ter deixado um montão de pistas.

Mas não. Dei queixa na delegacia sobre seu desaparecimento e a polícia cagou e andou. Ninguém na família sonhou com a possibilidade de eu tê-la matado. Eu não tinha motivo nenhum. Nós éramos felizes. E eu nunca consegui me lembrar do que aconteceu naquela noite.

QUERIDO OUVINTE

Adoro ouvir histórias. É a única hora em que eu não tenho pressa nenhuma. Se levar o dia inteiro, aí é que eu me divirto mesmo. Quando eu era pequeno, minha avó contava para mim toda noite. Aqui é a mesma coisa. E todo mundo conta. Mesmo que no começo eu precise incentivar, com choque elétrico, palmatória e afogamento.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

UM CONTO, UM PONTO

VOCÊ JÁ LEU SEU TREVISAN HOJE?

100.

A velhinha:
- Se um de nós faltar... ai, João... o que vai ser de mim?

90.

A barata – hóstia da náusea metafísica que se oferece às três da manhã na tua missa negra da insônia.

53.
Tão deprimida. Bebo em jejum dois copos do vinho laranja. Fico bem tonta. E varro alegrinha a casa inteira.

(Do livro 111 Ais, de Dalton Trevisan. L&PM Pocket.)

sábado, 10 de abril de 2010

UM CONTO, UM PONTO - 1

VOCÊ JÁ LEU SEU TREVISAN HOJE?

83.
Guido Viaro, uma rua barulhenta de Curitiba. Mestre Poty, uma praça Tiradentes às cinco da tarde, florida de mocinha, maníaco sexual, pombo branco em revoada. E eu, mal de mim, esse perdido beco sem saída atrás da Catedral.

22.
- Teu seio mais lindo – já viu dois gatinhos brancos bebendo leite no pires?

80.
Do último verão, no tronco da árvore, a casca vazia de uma cigarra: ouça o canto.

(Do livro 111 Ais, de Dalton Trevisan. L&PM Pocket.)