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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

PORQUE ESCREVO

“Se fosse sólido eu comia. Se fosse líquido eu bebia. Escrevo porque é gasoso.”
Alice Barreira

Num conto delicioso de seu livro DINORÁ (Ed. Record) Dalton Trevisan se auto-esculhamba, usando os clichês com que a turma crítica a ele sempre o ataca. Ou então, quanto mais se auto-esculhamba mais se elogia e avacalha a moçada do contra. Decida você mesma!

QUEM TEM MEDO DE VAMPIRO?

Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João e a sua bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens. Aqui o eterno João: “Conhece que está morta.” Ali a famosa Maria: “Você me paga, bandido.”

Quem leu um conto já viu todos. Se leu o primeiro pode antecipar o último – bem antes que o autor. É a sagrada família de barata leprosa com caspa na sobrancelha, rato piolhento na gravata de bolinha, corruíra nanica do dentinho de ouro. Trincando broinha de fubá mimoso e bebendo licor de ovo?

Mais de oitenta palavras não tem o seu pobre vocabulário. O ritmo da frase, tão monótona quanto o único tema, não é binário nem ternário, simplesmente primário. Reduzida ao sujeito sem objeto, carece até de predicado – todos os predicados.

Presume de erótico e repete situações da mais grosseira pornografia. No eterno sofá vermelho (de sangue?) a última virgem louca aos loucos beijos com o maior tarado de Curitiba. Explica-se: não foi ele fabricante de tradicionais vasos de barro? E seus contos, o que são? Miniaturas de bispote em série, com florinha e filete dourado.

Um mérito não se lhe pode negar: o da promoção delirante. Faz de tímido, não quer o rosto no jornal – e sempre o jornal a publicá-lo. Nunca deu entrevista e quanta já foi divulgada, com foto e tudo? Negar o retrato é uma secreta forma de vaidade, a outra face do cabotino.

Pretende, forte modéstia, ser o último dos contistas menores – e não é que tem razão? Aliás, nem contista. Nas frases mutiladas e estripadas, um simples cronista de fatos policiais. Nele não há outra postura ética e moral. Nem simpatia e amor pelo semelhante. Só e sempre os tipos superficiais de dramalhão, fantoches vazios, replicantes sem alma. Vítimas e carrascos no circo de crueldade, cinismo, obsessão do sexo, violência, sangue – e onde o único toque de humor? Iconoclasta ou alienado, abomina o social e o político. Daí as criaturas desumanas, os velhinhos pedófilos, museu de monstros morais, como reconhecer num deles o teu duplo e irmão?

Mestre, sim, no plágio descarado: imita sem talento o grafito do muro, a bula do remédio, o anúncio da sortista, a confissão do assassino, o bilhete do suicida. Sinistro espião de ouvido na porta e olho na fechadura. Não é o pasticho a falsa moeda desse mercador sovina de gerúndios?

Exibicionista, quer o nome sempre em evidência. Já ninguém fala ou escreve sobre seus livros – e você os suporta, um por ano, todo ano? Na fúria do ressentido, busca atingir as nossas glórias sacrossantas: Emiliano, a poesia, Turin, a escultura, Mossurunga, a música. Tudo em vão: a grotesca imagem do vampiro já desvanecida aos raios fúlgidos da História.

Pérfido amigo, usará no próximo conto a minha, a tua confidência no santuário do bar. Cafetão de escravas brancas da louca fantasia, explora a confiança de velhas, viúvas e órfãs. Ó maldito galã de bigodinho e canino de ouro, por que não desafia os poderosos do dia: o banqueiro, o bispo, o senador, o general?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

PORQUE ESCREVO


“Se fosse sólido eu comia. Se fosse líquido eu bebia. Escrevo porque é gasoso.”

Alice Barreira

O texto que segue está no ensaio “À Meia-Luz”, sobre o escritor argentino Adolfo Bioy Casares, escrito por José Castello e publicado em seu livro Inventário das Sombras, (Editora Record) onde José nos dá esse e mais 14 ensaios sobre escritores e criadores como Ana Cristina Cesar, Clarice Lispector, João Antonio, Caio Fernando Abreu, Manoel de Barros, Nelson Rodrigues Saramago, Trevisan e outros. A leitura deste “Inventário” é uma grande prazer. Aliás José Castello está nos dando também seu novo romance: “Ribamar”, já nas boas livrarias do ramo.


Bioy Casares pergunta se desejo ouvir uma história. Não é uma gentileza de sua parte, adverte, mas sim um favor que eu lhe prestarei. Antes que eu possa responder que, sim, ficarei muito orgulhoso de ouvir uma hist[oria relatada por Bioy Casares, ele me fala um pouco a respeito de seus hábitos de escritor. Escreve diariamente, sempre pela manhã, nunca mais que duas páginas de caderno. “Depois disso, já se começa a escrever tolices”, justifica. Acrescenta que, na verdade, escreve todo o tempo, não com as mãos, mas com a cabeça. “Ah, eu nunca paro de escrever”, me garante. Um exemplo? Está, suponhamos, fazendo a barba. Enquanto espalha a espuma pelo rosto, vai contando uma história para si mesmo. Em seguida a esquece. Durante o almoço, retoma a mesma história e a relata para uma amiga que o acompanha. Se o relato desperta interesse, sente-se estimulado e na manhã seguinte começa a passá-lo para o papel. Mas se a amiga fica entediada, se muda de assunto, prefere esquecer da história. “É porque ela não presta”, conclui rapidamente.

Mas nem sempre, mesmo quando consegue agradar, Bioy Casares passa a sua história para o papel na manhã seguinte. Prefere ruminá-la mentalmente pelo maior tempo possível, aguardando o momento adequado para a transcrição. “Quando tenho a trama esboçada, começo a pensar: bem, esses serão os pontos difíceis, as partes que podem me derrubar”. Então, sempre mentalmente, sem anotar uma única linha, trata de solucioná-los, um a um. “Só assim, com a estrutura pronta, posso me sentar para escrever com a certeza de que não serei enganado pela história”, diz. Mas esse é mais um engano, a literatura é feita de enganos. Bioy admite: “O problema é que, quando começo a escrever, todas as minhas soluções falham. Quando está diante do papel, por mais que tenha ruminado a história, todas as dúvidas reaparecem. “Esse preparo mental só serve, no fundo, para que eu me engane e assim fique menos tenso para escrever”, diz. “Engano-me, mas já sei que, na hora de escrever, minhas soluções maravilhosas não funcionarão e então serei obrigado a partir do zero. E, com um sorriso no rosto, conclui: “Sou apenas um charlatão”. Poucas vezes terá definido melhor a literatura.