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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

AUTOPEÇAS LITERÁRIAS CARDOSÃO

     A Oficina de Literatura do Cesar Cardoso

Aproveitando o encontro cultural Brasil-Itália que os dois países vêm promovendo, as Autopeças Literárias Cardosão promovem o esbarrão literário do ano: Italo Calvino e Ferreira Gullar. Ambos sonhando cidades imaginárias. A feminina Eufêmia, de Calvino. E a geografia mítica de Ailum, criada por Gullar. Serão mesmo imaginárias? Ou os sonhos deles serão mais reais do que as cidades onde vivemos, que se imaginam urbes mas são somente amontoados? Bem, discussões à parte, aproveitem os sonhos desses dois, que sonham com palavras.

AS CIDADES E AS TROCAS

A oitenta milhas de distância contra o vento noroeste, atinge-se a cidade de Eufêmia, onde os mercadores de sete nações convergem em todos os solstícios e equinócios. O barco que ali atraca com uma carga de gengibre e algodão zarpará com a estiva cheia de pistaches e sementes de papoula, e a caravana que acabou de descarregar sacas de noz-moscada e uvas-passas agora enfeixa as albardas para o retorno com rolos de musselina dourada. Mas o que leva a subir os rios e atravessar os desertos para vir até aqui não é apenas o comércio das mesmas mercadorias que se encontram em todos os bazares dentro e fora do império do Grande Khan, espalhadas pelo chão nas mesmas esteiras amarelas, à sombra dos mesmos mosquiteiros, oferecidas com os mesmos descontos enganosos. Não é apenas para comprar e vender que se vem a Eufêmia, mas também porque à noite, ao redor das fogueiras em torno do mercado, sentados em sacos ou em barris ou deitados em montes de tapetes, para cada palavra que se diz – como “lobo”, “irmã”, “tesouro escondido”, “batalha”, “sarna”, “amantes”, - os outros contam uma história de lobos, de irmãs, de tesouros, de sarna, de amantes, de batalhas. E sabem que na longa viagem de retorno, quando, para permanecerem acordados bambaleando no camelo ou no junco, puserem-se a pensar nas próprias recordações, o lobo terá se transformado num outro lobo, a irmã numa irmã diferente, a batalha em outras batalhas, ao retornar de Eufêmia, a cidade em que se troca de memória em todos os solstícios e equinócios.

(Em As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, pg. 38. Tradução Diogo Mainardi, Companhia das Letras.)

AILUM

Uma gravura do século XVII – não se sabe se cópia do natural ou trabalho de imaginação – é o único ponto de referência material de que dispõe o historiador acerca da cidade de Ailum.
A gravura mostra Ailum como uma construção arquitetônica irregular, assentada sobre uma ilha montanhosa, que ficaria a meia distância da África e da América do Sul. A parte baixa da ilha é tomada por uma amurada de pedra, que constituía certamente o cais do porto, a oeste da ilha. Partindo dessa direção, temos a escadaria que leva a uma espécie de fortaleza, de muros negros e altos, dominados por uma torre com ameias e seteiras. À esquerda da fortaleza, derrama-se o casario miúdo, erguido na encosta escarpada, entre manchas de vegetação. Mais atrás, à direita, sobre os telhados que se sucedem em níveis diversos, alteiam-se os dois campanários da catedral, outrora um convento.
Era no quintal dessa igreja que havia um poço, de águas profundas e claras. Tão claras que dava para ver, lá embaixo, a cabeça colorida de uma serpente, tomando toda a circunferência do poço. “A serpente dorme”, escreveu Huns Dott,* “e seu corpo se estende sinuosamente imóvel por debaixo da terra, em toda a extensão da ilha. O povo acredita que, se um dia a serpente acordar e se mover, Ailum, esfacelada, desaparecerá no oceano.”
 
* Viajante eleutense, que teria visitado a ilha no século XV. Cf. Manuscritos de Zambarbina, José Fuentes Cargol, Macondo, 1701. Apud. Pueblos y Ciudades, Muriel Farcía Xarques.

(Em “Cidades Inventadas”, de Ferreira Gullar, pg. 53, José Olympio Editora.)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

THAT’S ALL, FOLKS!

O homem está na cidade
como uma coisa está na outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está
em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a folheia

a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo

a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa

cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas

Buenos Aires
Maio/outubro 1975

(Trecho final do livro Poema Sujo, que o poeta Ferreira Gullar escreveu no exílio, em Buenos Aires, já sem passaporte, com a ditadura militar argentina assassinando a oposição. Gullar escreve esse poema como se estivesse dando seu último depoimento vivo. O Instituto Moreira Salles lançou no mês passado um vídeo com o poeta lendo todo esse seu longo e belo texto.)