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terça-feira, 20 de setembro de 2011

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito

Conforme já anunciei aqui nestas páginas virtuais e virginais, eu e meu maninho Cesar – o capataz eletrônico desse blog – estamos montando um livro de microcontos que por enquanto leva o nome de HAICONTOS. É um work in order and progress, expressão que foi traduzida pelo espírito de Hélio Oiticica num Centro Estético-Espírita como “vamu tocando essa merda aí pra que nu qui dá”. Despeitável público, com vocês mais quarto haicontos dessa dupla mais dinâmica que Batman e Robin!

Alice Barreira

DIÁLOGO
Há anos que faço esse caminho, posso ver até a marca dos meus passos nele. E sei de cor cada detalhe. É curto o meu caminho, é verdade. E ele também não tem obstáculos. Às vezes eu até acho que há algum obstáculo à minha frente, ou mesmo atrás de mim. Mas acabo constatando, aliviado, que tudo não passa de uma má impressão. Talvez por não ter dormido bem àquela noite, quem sabe? Acontece comigo e eu não sei. Que dirá os outros.
Os outros.
Há anos faço e refaço esse caminho e nunca cruzo com ninguém. Vivalma, como dizem. Dizem, não é? Já me enganei com a minha própria sombra várias vezes. Mas não perco a esperança. Isso não.
Há anos aqui, sozinho e falando com as paredes.
Há anos.

Hoje, por fim, elas começaram a responder.

Cesar Cardoso


NA ALFÂNDEGA
O pouso foi tranquilo e nós estávamos na fila, empurrando os carinhos com as bagagens. Todos cansados mas felizes, mostrávamos aos homens dos guichês nossos passaportes e nossas dentaduras e passávamos em seguida pelo raio X. Até que um dos guardas gritou: “ela tem dentes, ela tem dentes!”. Em segundos o pânico tomou conta do lugar e todos corríamos sem saber pra onde e gritávamos sem saber o quê.
Mas um outro guarda manteve a calma e, com segurança e rapidez, descarregou sua arma na cabeça da mulher que tinha dentes. Ela caiu, morta, e nós pudemos respirar aliviados e retomar a fila, tomando apenas o cuidado de contornar a grande poça.

Alice Barreira


VIAGENS
Férias inesquecíveis! – dizia o anúncio, em meio a fotos coloridas de paisagens campestres, praias, montanhas e também cenas urbanas diversas.
Eu não resisti e entrei. Afinal, eu estava de férias. Depois de 38 anos de trabalho ininterrupto, eu estava de férias pela primeira vez na vida. E confesso que também não resisti à belíssima mulher que me atendeu. Porque ela não era só bonita, e simpática, e alegre. Não. Ela era... insinuante. Isso. E talvez mais do que isso. Ela deixava tanta coisa no ar, além do perfume, que eu não resisti à sua oferta. Comprei o pacote de viagem, fui pra casa, fiz as malas e embarquei. Até do meu passaporte a agência se encarregou.
E aqui estou. De férias. Depois de 38 anos. Já devo ter percorrido todas as cidades do país. Ou devem faltar muito poucas. Não sei ao certo. Tenho viajado tanto desde que cheguei aqui há cinco anos. O país é realmente lindo, como prometia o anúncio. Só não sei em que país estou. Por mais que me esforce, não consigo entender nada do que as pessoas daqui falam. E nem elas a mim. Já tentei o inglês, o francês e o espanhol, três línguas que falo razoavelmente bem. Sem resultado. Não consigo fazer interurbanos, enviar e mails, encontrar uma embaixada ou chegar a uma fronteira. Nada. Também não me cobram a conta do hotel ou qualquer outra conta. Então eu sigo viajando.
Acho que a agência de viagem e aquela bela mulher perfumada estavam certos. Essas férias serão mesmo inesquecíveis.

Cesar Cardoso


MIAU
Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você. Num quarto escuro, amarro e algemo. Volto até a fumar só pra, na brasa do cigarro, tatuar meu nome na tua virilha. De pensar, já fico aceso. Arranco teus pelos à pinça, tuas unhas, uma a uma. Quero ver você fazer manha então, presa, surpresa. Nem adianta beicinho, chorar baixinho ou se esgoelar. Você pode até ganir e se urinar. Eu sei que dói, seu coração, os mamilos, dói tudo, mas eu quero, quero ver, quero ver você dizendo me amar, dizendo que agora faz sim tudo que eu mandar. E eu vou dizer na tua cara, meu bem, já não precisa.

Alice Barreira

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Eu e o meu irmão Cesar – que aliás é o editor deste blog, o latifundiário dono deste pedaço de terra virtual – decidimos escrever um livro a quatro mãos. Há algum tempo que publicamos aqui o que chamamos de haicontos. Como uma brincadeira literária, vamos nos desafiando a escrever microcontos, a partir de temas e ideias. E agora resolvemos reunir o que temos e seguir escrevendo novos textos, até acharmos que a coisa virou um livro. Óbvio que não sabemos quando nem mesmo SE isso vai acontecer. Mas até aprontarmos o livro ou encerrarmos a brincadeira, vamos em frente e publicando aqui. É o que o pessoal chama hoje de work in progress, que foi traduzido pelo espírito de Hélio Oiticica devidamente incorporado por Madame Marta por “vamu tocando essa merda aí pra ver no que dá”.

Beijos a todos, sendo os mais calientes para o meu maninho,
Alice Barreira

O OUTRO PAÍS
A paciente foi trazida para observação por sua irmã que, extremamente nervosa e preocupada, solicitou os cuidados de nosso setor de psiquiatria. Apesar de sua pouca idade, a paciente encontrava-se sem nenhuma dúvida sob o efeito de psicotrópicos, apresentando quadro alucinatório, com visões seguidas de delírios persecutórios. Dentro de nosso procedimento padrão, que segue as normas da Organização Mundial para a Saúde, nossos especialistas do setor tentaram convencer a menor a acompanhá-los ao SAP – Setor de Avaliação Padronizada – ao que a menor se recusou prontamente e com veemência. Fez-se necessário então o recurso do MCS – Modo de Convencimento Sistemático – com auxílio do PPF – Planejamento Psico-Físico, aplicado por nossos RPD – Responsáveis Personais por Deslocamentos. Mesmo assim a paciente manteve-se irredutível, apresentando quadro compatível com aceleramento cardíaco e dilatamento pupilar, o que mais uma vez caracteriza a drogadição. Procedemos então à ISA – Invitação à Sedação Absoluta, mas a paciente não correspondeu à eficácia do tratamento, balbuciando insistentemente as mesmas e únicas palavras sem sentido nem conexão com a realidade que repetiu desde que deu entrada em nosso estabelecimento de saúde: “o coelho branco, o coelho branco, o coelho branco”, enquanto entrava em convulsão seguida de óbito.

Alice Barreira

SURPRESA!
Acordei com uma sensação de enjoo. Me levantei e pude reparar que a provável causa do enjoo era que a casa balançava. Ou talvez fosse só o meu quarto. Olhei em volta. Aquele não era o meu quarto. Assustado, abri a porta e saí, mesmo estando só de calção. Havia uma enorme corredor, com muitas outras portas. A minha casa desaparecera, eu constatei, enquanto andava pelo corredor e examinava aquelas portas, que não tinham nenhuma razão para estar ali. O corredor acabava numa escada que eu subi, às pressas, pulando os degraus de dois em dois. Dei num amplo salão de refeições, com um lustre enorme no teto e centenas de mesas, todas postas para um almoço ou um jantar, com louças finas, talheres de prata, ou que eu imaginei que fossem de prata, guardanapos de linho branco e copos para água, vinho e licores. O salão tinha uma porta larga por onde eu me desabalei, estacando em seguida, paralizado. Eu via o mar. Isso, estava no enorme deck de um transatlântico e via o oceano que tomava conta de tudo em volta, muito maior do que aquele imenso navio. Mas eu tinha certeza de que fora dormir em minha cama, no meu quarto, dentro do meu apartamento, no prédio onde morava desde criança, na mesma rua, no mesmo bairro, na mesma cidade de onde nunca saí. Ou nunca saíra. Enquanto martelava a minha própria cabeça com essa realidade desaparecida, saí andando pra cima e pra baixo daquele transatlântico. Tinha muitos andares, muitas salas, muitas divisões, setores, partes, tudo, tudo, tudo deserto. Não havia ninguém a bordo. Mas isso não era possível, claro. Alguém devia estar em algum lugar daquela maldita embarcação, pelo menos para fazê-la navegar. Continuei procurando, esquadrinhando o navio todo, de ponta a ponta sem parar. Até deitar em qualquer lugar em que a exaustão me derrubasse.
Passei uma semana inteira andando sem parar pra cima e pra baixo e não encontrei ninguém. Havia comida e bebida à vontade nas diversas cozinhas espalhadas pelos andares. Mas nenhum ser humano. Aliás não vi nenhum ser vivo em todo o navio. Nenhuma mísera barata andava por ali. Nenhuma gaivota passava pelos céus sempre azuis, azuis, azuis. Eu não aguentava mais tanto azul, tanto mar. Já não conseguia mais pensar e, em desespero, me atirei na água.
Estou no mar há três dias e três noites. Talvez o impulso que me fez pular tenha sido o do suicídio, mas o baque na água fria talvez tenha despertado o instinto de vida em mim. O casco do navio possui umas reentrâncias onde posso quase me sentar e assim sigo o navio bem de perto e descanso quando preciso. Nunca me senti tão ocupado em toda a minha vida. Estou exausto. Vou me recostar mais uma vez no navio e espero finalmente conseguir dormir. E depois, quem sabe, acordar novamente em meu quarto.

Cesar Cardoso

UM ESTUDO PARA OS PRÓXIMOS PASSOS
A mulher de cabeça branca que vem ajeitando o vestido, o homem de terno amassado carregando a pasta abarrotada, a doméstica atrasada, a mulher de tailleur que solta a calcinha da bunda, o cara com a camisa do Coríntians que lê a manchete, o vendedor de vassouras a altos brados, o homem por trás do vidro escuro do 4 por 4, o pm que olha a gari, a gari que varre o meio-fio, o mendigo que conversa com seus cachorros, a criança que aprende a andar de bicicleta, a vizinha que faz cooper, o jornaleiro que sorri pra quem passa, a outra vizinha que agora está de cadeira de rodas, o senhor que era dono do botequim da esquina, o alcoólatra que espera o botequim abrir, o entregador da farmácia que ajeita o pneu da bicicleta, o vizinho cuja casa pegou fogo semana retrasada, o rapaz distraído que é dono da delicatessen da esquina, o namorado mandão que comanda a delicatessen com mão de ferro, o português dono da papelaria, o louco que fuma sem parar e torce peloBotafogo, o chaveiro da esquina, o rapaz que passeia com seis cachorros...
Qual deles será o nosso assassino?
 
Alice Barreira

BAMBA
Ele nascera no circo, filho de um casal de acrobatas. E assim, desde pequeno os pais o incentivavam a seguir seus passos. Mas o menino não gostava daqueles passos e chorava cada vez que o pai ou a mãe, brincando com ele, tentava aproximá-lo da linha acima do chão.
Os pais achavam que era apenas uma questão de tempo para o filho parar com aquela cisma, mas só mesmo sob ameaças de castigo e pancada o garoto cedeu e se iniciou na corda bamba.
E então chegou o dia de sua estreia. Seu nome no cartaz, a roupa brilhante, as sapatilhas, tudo era novo. Menos o mesmo sentimento que continuava carregando.
Subiu a longa escada, parou em frente ao arame, respirou fundo e foi caminhando, passo a passo, até a metade dele. Ali parou novamente, respirou fundo três vezes, enquanto a plateia inteira prendia a respiração, e então deu a pirueta. Um oh de admiração percorreu toda a lona. Mas em vez de pousar de volta na corda, o menino deu outra pirueta no ar, causando mais admiração ainda na plateia. E em seguida mais uma e mais uma e mais uma. A plateia, seus pais e todos no circo olhavam sem entender, enquanto ele seguia dando piruetas no ar, única forma que encontrara para não enfrentar seu medo de cair.

Cesar Cardoso

sexta-feira, 6 de maio de 2011

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Maninho,

Já que você insiste em manter esse blog, lá vão alguns contitos para teu desjejum. Soube que arrancaste um dente. Já não me morderás mais?

Beijos nos córneos

Alice

A INSISTÊNCIA

Diante da porta, confiro o endereço e toco a campainha. Uma mulher de uns 50 anos, cabelos bem cuidados, sorriso solícito, entreabre a porta e pergunta:
– Cadê a autorização?
Surpreso, digo que não tenho e ela imediatamente começa a fechar a porta. Tento me explicar, afinal ninguém me disse que era, mas a porta já vai se fechar e eu me calo, estico o braço e consigo evitar que ela bata a porta na minha cara. Entre cordial e aflito, pergunto:
– Por favor, senhora, como eu consigo uma autorização?
A mulher volta a estampar o sorriso e, apontando lá para dentro, me informa:
- O senhor tem que ir até o final desse corredor e entrar na terceira sala à direita.
– Muito obrigado, senhora – eu respondo, aliviado, enquanto faço menção de entrar. Mas, num movimento brusco, a mulher recomeça a fechar a porta, enquanto pergunta:
– Cadê a autorização?

A VISITA

Como faço todo fim de tarde, tomei meu banho, botei um vestido bem leve, me maquiei, passei perfume, ajeitei os cabelos com gel, chamei um táxi, peguei o elevador, cumprimentei o porteiro, entrei no taxi, dei a volta no quarteirão, saltei, tornei a cumprimentar o porteiro e a pegar o elevador, parei em frente à porta e toquei a campainha.

Ninguém abriu.

Insisti. Uma, duas, três, quatro vezes. Nada. Não adianta. Não estou. Nunca estou. E fico aqui parada, diante da porta: deixo um bilhete para mim?

YEAH, YEAH, YEAH

Como sempre não há quase nenhum movimento na rua. Os quatro rapazes chegam na esquina, com suas roupas coloridas, brincam muito uns com os outros e atravessam a rua cantando. O fotógrafo ri e vai pedir calma, pois ainda nem montou sua câmera. Mas não há tempo, um caminhão de mudanças dobra a esquina em alta velocidade e atropela os quatro.
Foi uma pena, não só pela dor das famílias mas porque todos ali em Abbey Road dizem que eles levavam muito jeito pra música.

PRIMAVERA-VERÃO

O estilista Piertr Rosui é o único não europeu a apresentar uma coleção na Semana de Moda de Paris, sem dúvida a mais importante do mundo. Para essa temporada Pietr desenvolveu uma linha de casacos de pele confeccionados à mão, com shapes que brilharam no corpo de Way Mulberry, em sua cadeira de rodas de linhas influenciadas pelo design italiano.
Em seguida, o golpe mais ousado de Rosui: seus vestidos trabalhados com bordados e deixando as ancas marcadas. Foram o principal destaque da coleção, com suas fendas esvoaçando para fora das macas onde vieram Alisia Deschcovith e Lea Rydewni, num desfile inspirado em Edgar Allan Poe. Para quem gosta de detalhes, até as agulhas dos soros de Lea e Alisia eram trabalhadas em ouro e não deixavam nada destoar na passarela.
Por fim ele nos mostrou mais uma vez seus casacões clássicos, de ombros bufantes e com o já tradicional toque báltico. Chegou a ser emocionante ver Raquel Dougherzy e Livia Cirmansk nos caixões que as traziam para seus últimos desfiles.
Quem quer novidades no mundo da moda pode tratar de seguir Pietr. Ou então esperar a próxima temporada.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Minha cara irmã Alice,

Aí vai o haiconto que te falei, com o tema da memória.
Beijo
Cesar


MEMENTO - 1

Hoje ele me contou as histórias outra vez. Eu o ensinando a andar de bicicleta, os nossos jogos de futebol na beira do rio, a força que fiz para a minha amiga ser sua primeira namorada, as viagens para assistir os festivais, as farras na cidade grande. Vai contando, cada vez mais animado, e de vez em quando para, emocionado com esta ou aquela lembrança. Sei que ele fica me olhando quando vou embora. Mas não olho para trás. Vou andando em linha reta e pensando que nada daquilo aconteceu.


Salve, maninho,

Aceitei o desafio. Lá vai o meu haiconto sobre a memória. Publica os dois lá no Patavina’s. Podíamos desenvolver mais esse jogo, essa parceria em desafio. Que tal?

Beijos gulosos da mana
Alice


MEMENTO - 2

Finalmente. Quanto tempo se passou? Não importa, o fato é que eu estou aqui. Eu consegui voltar.

Andei pelo cemitério mas não achei o túmulo. Então respirei fundo e atravessei a rua principal. Entrei na farmácia, na papelaria, na padaria, comprei coisas de que não precisava, só para poder pisar de novo aquelas calçadas e, aos poucos, ir medindo as reações. No bar, pedi uma cerveja e fiquei ali no balcão puxando assunto e mastigando alguma coisa.

Anoiteceu. Eu continuo no mesmo balcão. Mas agora estou bêbado. Nada. Ninguém lembrou de nada. Nem de mim. Vou pagar a conta e voltar pra rodoviária.

terça-feira, 22 de junho de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

Meu irmão,

Quem sou eu para negar um pedido de meu público, esta gente submissa? Adoraria amarrá-los e dar em todos umas boas chicotadas. Ou pode ser com você mesmo. Topas?

Beijos da mana,

Alice


Cara irmã,

Topo pagar mais um ano de terapia pra você. E obrigado pelos textos.

Beijo

Cesar


as nãopatias - 2

Para alimentar seus inimigos
Espere chegar o mês de agosto. Então, em uma bacia, misture dois litros de seu perfume preferido e sete colheres de sopa de urina de rato. Leve ao fogo. Quando estiver fervendo, coloque suas mãos em imersão até que a pele se solte, depois a carne e por fim os nervos. Tempere com pimenta, sal e noz moscada e sirva.

Para fazer a pessoa amada pensar em você
Pegue a polpa de dez morangos, abra a cabeça da pessoa amada com golpes de talhadeira e deposite ali os morangos. Recoloque os pedaços da cabeça no lugar e envolva tudo com sudários até que, por milagre, o sangue estanque. Quando a infecção supurar marque a data de seu casamento.

Para que lacraias entrem em seu ouvido durante o sono
Numa noite de quarto minguante, procure o tronco podre de uma figueira numa praça ou num parque. Deite-se ao pé dela e faça uma trilha de excrementos de serpente das raízes até seu ouvido esquerdo. Espere as lacraias seguirem a trilha, entrarem em seu ouvido e aguilhoarem seu tímpano. O inchaço resultante será aliviado pelos túneis que as lacraias cavarão dentro de sua cabeça. Deixe-se embalar pelo ruídos de suas patas e só então adormeça e sonhe.

Para que o bebê rejeite seu leite
Unte seus seios com uma pasta de mel e curare. Dê o seio para o bebê. A princípio ele vai rejeitar devido às queimaduras que o curare causará em seus lábios. Mas a fome vai ser mais forte que o medo do veneno. Em três dias começarão os vômitos.

Para ser reconhecido por animais das florestas de Bangla desh
Desaprenda a falar e a ouvir. Passe a caçar seus alimentos, começando com insetos e, aos poucos, matando pequenos mamíferos, até chegar a seus familiares. Lembre-se de agradecer a Deus o alimento que ele lhe dá e você estará pronto.

Para ter feridas que não cicatrizem
Vá morar em frente a uma igreja. Cubra a sua cama com sete quilos de açúcar do tipo demerara. Quando o sino da igreja marcar as seis horas da tarde, pegue uma navalha e vá separando a pele das canelas até que as veias fiquem à mostra, sempre repetindo: “navalha-me Deus na terra”. Deite-se então na cama, cubra-se com o açúcar e espere as formigas sentirem o cheiro e chegarem. Repita esse procedimento por sete semanas, cada vez subindo mais os cortes pelo seu corpo, até chegar aos olhos.

Para que seu filho não tenha mais medo da noite
Numa madrugada sem lua, acorde seu filho mais novo com gritos, pegue-o pela mão, atravesse com ele o corredor da noite, ceguem o cachorro, currem dois sonhos e matem o irmão mais velho. Em seguida vão dormir que já é tarde.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

Alice, minha irmã querida, o pessoal escreveu pedindo novas nãopatias. Pode ser?
Beijos do mano,
Cesar

OS BRAVOS SOLDADOS DO FOGO
Acordei com a sirene. O barulho veio vindo, aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri a abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. Insisti que não havia nenhum incêndio em qualquer lugar da casa. Mas eles me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, sempre há um incêndio.

CELULA MATER
Tem que ser uma facada só. E firme. Você apalpa o pescoço e sente direitinho o vão. É ali, não tem erro. Despeja o sangue numa vasilha. Ah, emplastro de vic vaporub. É tiro e queda. No dia seguinte a tosse já sumiu. Joanete, minha filha, me matando. Foi uma cerimônia muito bonita. As palavras do pastor me emocionaram, sabe? O ponto cheio vem depois. Primeiro você faz o ponto de alinhavo. E os salgadinhos? Levinhos! Tinha até de camarão. Ruim com ele, pior com ele.

UM SINAL
Ei, não tá me conhecendo? Sou o filho do hulk, lembra de mim? Eu compro, eu vôo, esmola e chafariz, tá ligado? Ei, mister, come on, I have a ritalina, I have a rivotril. Tudo aqui na veia, na bolsa de quem passa atrás do vidro. A segurança do cinto, né? Não tem essa não, aqui é o maior cinema na sarjeta, hollywood, jet set, bagdá, tá ligado? Eu tô. Ligado no sonho de craque que o crack do sonho me dá. Ei, mister, olha só, bolinha no focinho, uma foca negra no sinal. Eu compro, eu vôo. Cartão e celular. Ei, não tá me conhecendo? Sou a mãe do Volverine. Morrer não é tão ruim assim.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Meu caro maninho Cesar,
Aí vão as minhas primeiras nãopatias. Outras virão. Só não trago a pessoa amada em três dias. Posso, no máximo, levá-la, sem devolução.
Beijos desaforados e adentrados,
Alice (no país dos muravilhos)
(PS: você viu a exposição de arte em Sampa? Quando o problema da arte passa a ser a Receita Federal, algo já esqueceu de apodrecer, não achas?)

as nãopatias

Para que seu tio volte a molestá-la
Numa tarde nublada pegue uma faca só lâmina e retire os testículos de um carneiro. Use o sangue para untar uma Barbie, cubra tudo com punhados de arroz cru e enterre à sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais.

Para que a pessoa amada perca os movimentos do lado direito do rosto
Junte punhados de tinhorão e espirradeira, coloque num liquidificador com um litro de seiva de coroa de cristo e bata até obter uma pasta. Durante um mês coloque um copo desse líquido na máquina de lavar junto com as roupas da pessoa amada e repita enquanto a lavagem acontece: com dois te movo, com dez te paro.

Para que não cresçam dentes nos umbigos
A cada noite de lua nova corte um punhado de cabelo de uma pessoa cega e prepare com eles uma sopa. Acrescente vidro moído obtido de janelas. Deixe ferver até secar e ponha as sobras ainda quentes dentro da fronha de seu travesseiro. Durma. Repita esse procedimento por dois meses.

Para ter sangramentos e hemorragias
Fume alguns maços e apague os cigarros um a um em seu supercílio direito, até que aconteça o rompimento de vasos sanguíneos. Repita a cada vez: “o poder do sangue, o sangue do poder, com ele sou vaso que vaza, vermelho de ser”. Para as mulheres, os cigarros podem ser substituídos pela gravidez seguida de aborto induzido por objeto perfuro-cortante.

Para que seu bicho de estimação não consiga mais se alimentar
No dia de São Francisco, retire o menor dente que seu bicho de estimação tiver, com um alicate de unha. Faça um breve com um pano da cor do pelo ou das penas ou da pele do animal e deixe de molho em uma papa de urtigas por três dias. Depois que secar, queime e jogue as cinzas na água do animal. Mas antes, retire o dente e implante-o em sua boca.

Para que nada aconteça
Na madrugada da oitava Sexta Feira de cada mês, acenda uma pequena vela cor de rosa e tente comê-la sem apagar sua chama. Para certificar-se de que a chama não se apagou, olhe no espelho até conseguir ver o brilho dela dentro de você. Desse dia em diante, nada acontecerá.

PATAVINA’S NEWS



BALA PERDIDA MATA IRACEMA

Uma discussão de trânsito acabou em tragédia ontem à tarde, na esquina da Rua Ipiranga com a Avenida São João. O motoqueiro João Rubinato avançou o sinal e atropelou o segurança Cibide Barbosa, que reagiu a tiros. Mas a única pessoa atingida pelos disparos foi a doméstica Iracema (sobrenome desconhecido), que saía do magazine Leader, onde fora comprar seu vestido de noiva. Iracema ainda tentou correr, mas acabou sendo atropelada por um carro, pois o sinal já abrira e ela atravessou na contramão. No entanto o Instituto Médico Legal confirmou à nossa reportagem que Iracema morreu devido ao ferimento à bala, que perfurou seu pulmão, e não por causa do impacto do veículo, que lhe causou apenas escoriações generalizadas. Nenhum familiar compareceu ao IML para requisitar o corpo, nem mesmo o noivo. Segundo informações da funcionária do Magazine Leader, que vendeu o vestido de noiva, a vítima teria lhe mostrado um retrato do noivo e confidenciado que este encontra-se detido por furto na Penitenciária de Guarulhos, “mas que sai mês que vem”.

(Da reportagem local)

sábado, 10 de abril de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

Novos haicontos de Alice Barreira

O ARTILHEIRO

Logo cedo, após o café da manhã, sou levado para a sala completamente às escuras. Me conduzem até a posição em que devo ficar, alguns passos antes da bola. Não muitos, para não correr o risco de perder a direção dela. Ao ouvir o apito, eu devo cobrar o pênalti imediatamente, sem usar o tempo para tentar enganar o goleiro que, eles me garantem, está lá à minha frente, sobre a linha do gol, tentando defender minhas cobranças. O apito, alto e prolongado, é a única coisa que nós dois conseguimos escutar enquanto eu chuto e ele tenta defender. Alguém, ou algum mecanismo que nem eu nem ele conseguimos ver, logo repõe uma bola na marca do pênalti, eu torno a ouvir o apito e me movimento para uma nova cobrança. E assim passo meus dias, com uma breve interrupção para o almoço, que deve acontecer por volta das duas da tarde, segundo meus cálculos. Quanto gols terei feito? Quantos perdi? Não sei, mas sigo tentando me aperfeiçoar.

BANDIDOS REAGEM À PRISÃO
E MORREM EM QUEDA

Durante uma operação na madrugada de ontem, dois homens foram surpreendidos por policiais da 28ª DP em atitude suspeita numa casa velha no Alto da Mooca। Segundo o Sargento Oliveira, comandante da operação, o local, com cerca de dez metros de frente e dez de fundos, é um conhecido abrigo de vagabundos que não têm onde dormir. Os policiais cumpriam um mandato de despejo e uma ordem judicial para demolição quando foram atacados a tiros por dois marginais, conhecidos apenas como Joca e Mato Grosso. Na tentativa de fuga que se seguiu parte do piso da maloca desabou, carregando com ele os dois homens. Eles ainda foram levados com vida ao Hospital das Clínicas mas não resistiram aos ferimentos. Com os marginais a polícia apreendeu dois revólveres calibre 38, meio quilo de maconha e um pacote de torresmo à milanesa. Um homem que se identificou como João Saracura e se disse fiscal da prefeitura, garantiu no entanto que a maloca na verdade é um palacete assobradado, estava legalizada e ninguém podia demolir. Saracura foi detido para averiguações.

O ENGANO

Eu falei, insisti, briguei, me aborreci. Adiantou? Aquele idiota não me deu ouvidos. Por que ele seria escolhido? Um vaidoso, isso sim. Sempre se achou melhor do que os vizinhos, do que nós, do que todo mundo. Quantos meses gastamos nesse projeto maluco? Podíamos ter fugido pra bem longe, como tanta gente fez. Não, aqui trabalhando feito escravos por este sonho doente. E esses animais, pra quê? Pra quê? Se nem podemos matá-los pra nos alimentar. Quando o céu começou a escurecer, ele virou o tal. Não falei? Não falei? – repetia feito um corvo. Trancou a nós todos aqui, junto com esses bichos barulhentos e imundos. E a chuva? E o aguaceiro prometido, você viu? Pois sim, quarenta dias caindo terra e mais terra do céu. Nunca vi nada assim. Dormir ficou impossível. E afinal, o que aconteceu? O que é isso, um deboche? Agora estamos aqui, soterrados nesta desgraça que tinha que ser tão segura. Presos nesta escuridão, com o ar cada vez mais pesado e as feras rondando cada vez mais perto, cada vez mais perto.

segunda-feira, 22 de março de 2010

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


NOVOS CONTOS DE ALICE BARREIRA

Meu caro maninho Cesar,

Aí vão três haicontos inéditos pra animar teu blog. Ainda não estão no ponto mas eu chego lá. Vamos parar de falar de amor, da natureza, do futuro. Essas coisas são boas pra vender shampoo, apartamento e carro. Vamos falar mesmo é de assassinato e ódio, que é a nossa especialidade enquanto humanos.

PS: o que você acha da gente currar uns arcebispos e depois escrever cartas pedindo desculpas, como eles fazem?

Beijos incestuosos da tua sempre mau comportada irmã,

Alice

A SAÚDE DO BEBÊ

A bolsa d’água já se rompera, o marido já estava com o carro ligado, a mãe já levava a mala com as roupas, a empregada já esquentava o jantar para o filho, o trânsito já estava desimpedido na avenida principal, a vaga para o carro já estava reservada na maternidade, a equipe médica já estava toda preparada, a respiração cachorrinho já lhe saía pela boca, a anestesia já lhe entrava pelo braço, a criança já estava na posição, a médica já a retirava, o marido já filmava tudo e a filha caçula já tinha vindo ao mundo.
A recém-nascida, de cabelos brancos, mãos trêmulas e enrugadas, olhou para ela com dificuldade e disse:
- Sou eu, sua avó.

DE TUDO AO MEU AMOR

Tantas e tantas vezes tinha se imaginado ali. Esperou alguns homens entrarem primeiro, para ter com quem aprender em caso de dúvida, que ele tinha certeza que surgiria. Por fim deu seus passos, como quem entra no labirinto.
Foi cumprindo com facilidade as tarefas. Descobria maravilhado que eles – fossem quem fossem – estavam ali para facilitar. Pôs o troco no bolso, passou pela porta que se escancarava diante dele e, com mão firme, colocou a moeda no local indicado.
À sua frente, uma cortina se abriu por trás de um vidro transparente e suado. E ele pôde ver, por fim. Ela devia ter o quê? Uns oitenta, oitenta e cinco anos. Usava um peignoir que fora rosa um dia e escovava os dentes. Ele começou a se tocar. Sabia que tinha cinco minutos mas quando ela tirou a dentadura e começou a escová-la na mão, não se conteve mais.

RIR É O MELHOR

No centro do palco um sujeito usando roupas de atleta está amarrado de cabeça pra baixo há mais ou menos uma hora e meia. Ele não disse uma palavra, percebemos apenas sua respiração pesada. Por fim, um outro sujeito, também com roupas de atleta, entra em cena, em marcha cadenciada, dá duas voltas pelo palco e, ao passar novamente pelo que está amarrado, saca um revólver e lhe dá um tiro na cabeça, fazendo espirrar sangue até a terceira fila pelo menos.
E nós estouramos numa gargalhada sem fim.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


Meu caro Cesar,
Aí vão os contos que você pediu. E você me pergunta porque escrevo? Bem, só posso te dizer que se fosse sólido eu comia, se fosse líquido, eu bebia. Escrevo porque é gasoso.

Besos,

Alice Barreira

QUE HORAS SÃO

Sempre nunca, como quem fosse aos Estados Unidos e jejuasse no guichê do correio até que uma amiga lembrasse de enviar um cartão postal dando notícias de mim. Andar de bonde em São Francisco e ficar muda em outra língua talvez acalmem este não querer olhar como meu pai fazia. Ah... o cigarro e a vodka podem ser boas apólices de seguro. Por que as alfândegas só me pedem passaportes? Eu gostaria de contar ao homem de sorriso gentil que torço pelo Fluminense, que fiquei viúva, que não vi a uva. E ele, solícito, carimbaria minha alma e determinaria meu tempo de permanência em algum lugar.

O tempo, esta soma improvável de vontade e acaso.


ESTRELA BRASILEIRA NO CÉU AZUL

Ah, se eu tivesse um avião! Cada problema um aeroporto, cada angústia uma viagem. Apertem os cintos, os acentos são flutuantes, non stop. E o sorriso seguro das aeromoças.

Alguém morreu? O DCA avisa que é proibido fumar em todo território nacional. Separação? O prazo de validade do passaporte é de dez anos, podendo ser renovado. Câncer? Flight number fifty two now boarding in gate four.

Quanto ao anseio infinito e vão, quanto ao nunca de núncaras, as linhas aéreas literárias agradecem a preferência e esperam sempre contar com sua presença a bordo de nossas aeronaves.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


HAICONTOS

Com o cansaço antecipado do que não acharei, fui para o meio de Lisboa acompanhar o início das filmagens de Haicontos, média-metragem do cineasta português Fernando Gente, baseado em 15 contos meus. O roteiro foi premiado e conseguiu financiamento da Faculdade de Cinema da Victoria University of Wellington, da Nova Zelândia, e mesmo que ninguém entenda porque a Nova Zelândia resolve financiar cinema em português, deve ficar pronto em meados de 2010 ou Deus sabe quando. Seguem três dos haicontos, que no filme vão se misturando, formando aquela terceira cor que alguém chamou de aurora. Tomara que o filme não fique como ervas, sem ser arrancado.

Alice Barreira

PRETÉRITO DO FUTURO

Uma chuva fina começava a cair e eu apertei o passo para atravessar a praça e chegar logo ao teatro. De repente o velho surgiu quase à minha frente, como se tivesse se materializado do nada. Vinha num arremedo de corrida, com uns passinhos miúdos e desencontrados, e de súbito estacou, sacudiu os braços e deu meia volta.

Vai embora o velho doido, eu pensei. Mas ele deu outra meia volta e recomeçou seu estranho balé de passinhos desengonçados, tentando uma rapidez que não alcançava e vindo novamente em minha direção. Então foi minha vez de parar e olhar fixamente para ele, tentando algum contato ou pelo menos entendimento. Mas o velho seguiu absorto em sua dança, ritual ou mal de Parkinson.

Se estendesse o braço poderia tocá-lo. Súbito, ele partiu pra cima de mim, cabeça baixa, cheguei a levantar as mãos em sua direção para evitar uma trombada. Então ele deu uma guinada de corpo para a esquerda. Tive a certeza que ia cair. Mas não. Seus pezinhos gingaram e o levaram a passar por mim. Em seguida esticou a perna e novamente se pôs a sacudir os braços, dizendo algo incompreensível. O que dizia o velho? Que língua era aquela? Ou melhor, que monossílabo era aquele, repetido já quase ao lado do meu ouvido?

Gol. Era isso. O velho repetia gol, gol, gol. E me encarava com seu grito quase mudo. Gol. Olhei fixamente seu rosto, a boca, o nariz torto, os olhos, o olhar, aquele olhar, naquela praça.

Sim, o velho era eu.


PROFISSÃO

Uma haste dos óculos presa com esparadrapo. A dentadura frouxa por causa da boca torta. A boca torta devido ao derrame. As costas com uma dor constante do abaixar para as guimbas. Os dedos amarelados pelas guimbas. O peito atravessado pela alça da bolsa. O zíper quebrado. Os retratos amassados dentro da bolsa. Os tios, a mulher, o casal de filhos, às vezes na memória. As pernas sobre o cobertor. O cachorro por entre as pernas, latindo para os garotos que jogam futebol bem em frente e gritavam gol, gol, gol.

A memória por entre a boca. As pernas frouxas. As costas presas com esparadrapo. Os tios, a mulher, sobre o cobertor. Uma haste dos óculos dentro da bolsa. O peito atravessado por uma dor constante, bem em frente. A dentadura quebrada. As guimbas tortas na boca. Os dedos tortos do abaixar por causa do cachorro. Os retratos amarelados dos garotos no futebol. As pernas devido ao derrame. O casal de filhos amassados pelas guimbas, pela alça da bolsa, pelo zíper. Às vezes latindo.

Bem em frente, a placa, na calçada: aluga-se.


FINADOS


Os helicópteros seguem cruzando o céu e despejando bombas, ao som de Waldick Soriano, enquanto as crianças interrompem o futebol para que a kombi do ferro-velho passe lentamente, quase se desconjuntando, com o velho ao microfone, compro minas, compro aerrequinzes, compro máquinas de lavar. Ninguém o escuta no meio da algazarra de mulheres disputando a unhadas e empurrões as ofertas dos camelôs. Do outro lado do campo de terra batida os gigolôs tentam eles mesmos satisfazer os clientes depois que todas as putas foram internadas com a epidemia.

Apenas uma pessoa atravessa em passos lentos essas pequenas multidões e se aproxima do que restou do pequeno cemitério. Ele entra, dobra à esquerda e logo se ajoelha. É Deus. Ajoelhado, ele deposita uma tábua no túmulo da esperança.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –

HAICONTOS


A NOTÍCIA

A cada manhã, ele acorda às seis e meia, desliga o despertador antes que toque, se levanta sem fazer barulho nem acender a luz, vai até o banheiro, fecha a porta meio emperrada com cuidado, ergue a tábua de madeira, mija, pega a escova na prateleira dentro do box, bota pasta, escova os dentes, bochecha, cospe, passa uma água fria demais no rosto, vai até a sala, tira o pijama, veste a bermuda e a camiseta que deixou esticadas de véspera sobre a poltrona, calça as havaianas, abre a porta da sala com cuidado, desce o lance de escadas, abre a portaria, atravessa a rua, para em frente à banca, espera que cheguem os três jornais, empilha os exemplares, paga com o dinheiro já certo, volta para casa, senta-se em frente à mesa da cozinha e lê atentamente os obituários, à procura da notícia de sua morte.


A PRISÃO

Foi julgado, condenado e levado à cela com vendas nos olhos. No caminho lhe informaram que nas novas prisões não havia grades e lá ele só permaneceria por sua livre vontade, mesmo tendo sido condenado.

Quando pôde tirar a venda estava só na cela e pôs-se a andar apressado com um único pensamento: ir embora dali imediatamente.

Mas a cela é tão ampla que, por mais que caminhe dias e noites sem parar, jamais consegue encontrar a saída.


A VIAGEM

Esse ano conheci Praga, a única capital européia em que ainda não fora. Tive que tomar um dalmadorm e meio pois o vôo era mais longo que o habitual. O cálculo do doutor Castello mais uma vez foi perfeito, acordei com o avião pousando.

As instalações do hotel correspondiam exatamente ao que eu vira no site. Inclusive os cabides vermelhos. Já o bar que escolhi não se mostrou tão agradável assim. O trânsito fazia com que a viagem até lá durasse sempre cinco minutos a mais do que o previsto. Algumas cervejas não vieram na temperatura prometida no e mail. E nem todas as garçonetes aceitaram minhas ofertas monetárias para me acompanhar até o quarto.

Mesmo assim tomei os doze porres, um para cada noite passada na cidade.

Talvez eu volte pro ano.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –


CORRESPONDÊNCIA

S.

Os exames não indicaram nada mas continuo com as dores por todo o corpo e sem conseguir dormir antes das três da manhã. Acordo às sete, pontualmente, com o vômito. Sim, comprimidos de todo tipo, pra dor, pra enjôo, pra febre, pra tudo. E agora umas injeções que tua mãe receitou.
E nada.

Beijo
T.

S.


Ontem consegui sair de casa. E melhor ainda: fui ao banco e renegociei a dívida do cartão. Acho que começo a me acostumar com a tua falta. Mas quando lembro que você está aí com eles. De qualquer forma segui teu conselho. Toda noite, em vez de novela, vou à ala dos pacientes terminais no hospital aqui em frente. Falei no teu nome e eles aceitaram meu trabalho voluntário. Tenho dormido melhor.

Beijo
T.

S.


Deixei tuas coisas na portaria, pode passar a qualquer hora. Felicidades para teus filhos. Que eles não cruzem muito com gente como nós. Meu sono está voltando. Uma vez por semana escolho um dos pacientes e lhe dou repouso. Às vezes uma injeção (tua mãe me ensinou pensando que era pra mim). Às vezes um aparelho desligado. Ou, nos mais debilitados, um rápido sufocamento com o travesseiro. É, você tinha razão. O sono voltou.

Beijo
T.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

CHIPS – o prazer da batata & o poder do circuito –



FAMÍLIA DE PELÚCIA


Flanfar era um pequeno urso de pelúcia todo verde com olhos e nariz azuis. E era isso o que ele mais odiava. Seu irmão mais novo, Flanfis, era todo azul e tinha olhos e nariz verdes. Ele era da cor que Flanfar queria ser, tinha os olhos e o nariz da cor que Flanfar queria ter. Talvez por isso Flanfar fumasse sem parar. E talvez por isso também apagasse todos os seus cigarros na pelúcia azul e macia do irmão. Flanfis não reagia e tentava encontrar algum motivo que justificasse a atitude de Flanfar, mas de noite na cama chorava ininterruptamente. Chorava baixinho para que ninguém notasse ou para ver se ele mesmo não notava. Mas Flanfar, que dormia na mesma cama do irmão, sentia o balançar dos soluços de Flanfis e puxava os olhos e o nariz azuis de Flanfis até que ele quase desmaiasse de dor.

Depois disso, Flanfar caía num sono profundo enquanto dezenas de pensamentos cruzavam o cérebro de pelúcia azul de Flanfis e ele não conseguia dormir. Então sentava na cama, de costas para o irmão, olhava em torno do armário onde viviam e via as prateleiras com outros bichos de pelúcia, com carrinhos de corda, soldadinhos de chumbo, bailarinas de crepom, bolas de gude, pipas de papel colorido, dados e caixas de jogos. E seus olhos sempre terminavam pousados no mesmo lugar. A pequena cama de Flanmia, sua irmã caçula. Flanfis gostava de Flanmia, que tinha a pelúcia de uma cor que ele não conhecia e que possuía um olho amarelo e outro vermelho e que não possuía nariz. Flanfis achava curioso ela ter um olho de cada cor. E achava gozado a irmã tão miúda e sem nariz. Talvez por isso nas noites insones não conseguisse desgrudar os olhos de sua pequena cama, descesse da prateleira onde estava, atravessasse o armário onde viviam, subisse na cama de Flanmia, abraçasse a irmã caçula, chamasse baixinho pelo seu nome, acariciasse as pálpebras que cobriam aqueles olhos amarelos e vermelhos, apertasse contra seu próprio corpo aquela pelúcia de cor indefinida, abrisse lentamente aquelas pernas quentinhas, tampasse a pequena boca de dentes macios e a possuísse até sonhar que gozava numa terceira cor que ele não conhecia e resultava da mistura do amarelo com o vermelho.