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domingo, 4 de julho de 2010

PATAVINinha’s

MANU,ELA

Ela era Manuela.
Isso que era ela.
Só isso, não.
Tinha sido Manu, quando pequena como um grão.
Que se o nome é selo caro, o apelido é carinhoso,
de um gostar bem gostoso.
Chi, mas como ela implicava.
Manu, ela não gostava.
Logo brigava com quem assim a chamava.
Falava pelos cotovelos.
Xingava pelos tornozelos.
De tanto bater o pé, sabe como é que é,
além de Manu, virou Nué.
E mesmo que você não acredite,
se tornou Manuela-Bronquite.
Sei que soa esquisito.
Mas espere que eu explico.
Enquanto a turma com apelidos brincava,
ela bronqueava tanto que tossia e se engasgava.
E cada vez mais danada
da sua vida mal humorada.
Um dia, Benedito, o Bené,
a chamou de Manuscrito, até.
Só que agora Manuela
não é só o que era.
Virou Manuela Aurês
- Professora de português.
Tome título e sobrenome.
Mas, como antes, Dona Manuela Aurês,
vejam bem aí vocês,
continua implicante.
Não deixa ninguém ir ao banheiro.
Chegando na classe, pega o giz e logo diz:
“Desde agora quem falar vai dando o fora”.
Todo aluno anda mudo.
Manuela é quem sabe tudo.
Tudo tudo tudo tudo.
Escolhe a uva do Ivo.
E pra quem vai ler,
o nome do livro...

Até que no último feriado,
a turma bolou um plano.
Eu, que sou discreto, não conto.
Foi um plano secreto.
Mas digo que todo o tempo
a turma passou catando bagulho.
Botão, barbante, algodão.
Papel, tinta e pincel.
Caixa, caixinha, caixote.
Pra cima e pra baixo, cada um com seu pacote.
Meninos e meninas batiam,cortavam, cosiam.
Colavam, refaziam, remendavam...
Ao entrart na sala na volta à aula,
Manuela Aurês esfregou os olhos
e cobriu as mãos com o rosto.
Em vez do bom-dia de sempre,
o que ela ouviu foram zurros.
Em vez das caras de sempre,
viu trinta caras de burro.
Burros de cartolina.
Com olhos azuis de confete.
Topetes de serpentina.
Sobrancelhas de purpurina.
Burros de papel crepom.
Com crinas de couro marrom.
Burros de isopor.
Com belas orelhas de flor.
Burros de brim.
Com dentes de cetim.
E vê se pode:
havia até um cor-de-burro-quando-foge.
Manuela, enfezada,
foi fazer a chamada.
Mas não é que a cada nome que dizia
era um zurro a resposta que ouvia?
Até que perdeu a calma
e suspendeu a aula.
Esperneando pelo corredor
foi chamar o diretor.
Falando pelos cotovelos.
Xingando pelos tornozelos.
Fez tamanha barulheira
que voltou com a escola inteira.
Aluno, professor, inspetor e servente.
Olhando as caras de burro.
E as trinta caras de burro
olhando pra toda gente.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

PATAVINinha’s

ROBERTO FLOR,
UM COBERTOR


Na minha casa
mora um cobertor
que eu batizei
de Roberto Flor.

Tinha guardado
esse nome pro meu gato.
Só que aqui no prédio
todo bicho vai pro lixo.
É proibido.
É contra a tal da lei

Mas pra que ela serve
isso eu não sei.

Diz que bicho
faz barulho,
suja tudo.
Mas meu irmão menor
chora berra faz xixi
e aí
fica todo mundo mudo.

E a vizinha de baixo
quando briga com o marido?
Também não devia
ser proibido?

Só espero que não proíbam
a gente de ter coberta.
Senão de madrugada
é resfriado na certa.

E no inverno
sem cobertor?
Vou direto
pro doutor!

Mas essa história do gato
Eu não engulo não.
Me dá um resfriado no coração!

Ninguém sabe aqui em casa
que o Roberto já é um rapaz.
E vive namorando uma colcha
lá da cama dos meus pais.
Ela é brincalhona
que nem hora do recreio.
E tem uma lua cheia de idéias
desenhada bem no meio.

Hoje expliquei pros meus pais
que eles precisam batizar a colcha.
Afinal, coitado do Roberto Flor:
pra uma namorada sem nome
como é que se manda
bilhetes de amor?

Sempre que posso
ajudo o Roberto.
Levo e trago recados
boto os dois bem perto.
Juntos na máquina de lavar...
ou então no varal
uso um pregador
pro casal se abraçar.

Às vezes
quando a noite já piscou seu olho
e os sonhos querem me levar
para o mundo do tanto faz
eu e ele vamos visitar
a colcha da lua cheia
lá na cama dos meus pais.

Brincamos de sonhar
enroscados
enquanto o quarto esfria.
Até o sol
bater na janela
e dizer bom-dia.


O texto Roberto Flor saiu no meu livro de poemas infantis Manu,Ela, lançado pela Editorial Nórdica, em 1987 e que se encontra esgotado (ou seja: não se encontra).