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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

MERCADO FINANCEIRO

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CAMPOS DE CARVALHO
É UMA VACA DE NARIZ SUTIL!

Entre a fina ironia e a rematada ou desrematada loucura viaja a obra de Campos de Carvalho. O insólito e o humor constroem sua literatura, pouco conhecida pra qualidade que tem. Publicou os romances A Lua Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (61), A Chuva Imóvel (63) e O Púcaro Búlgaro. Campos de Carvalho também foi colaborador do Pasquim e os romances O Púcaro Búlgaro e A Lua Vem da Ásia já foram adaptados para o teatro (o segundo está em cartaz até o fim de setembro no Rio de Janeiro, adaptado pelo ator Chico Diaz, que também está no palco representandoe é uma ótima pedida).
Essas quatro obras estão juntas no livro Obra Reunida, publicado pela José Olympio. É o melhor investimento do mercado.Ouro, arma, ações, drogas? Besteira! Invista em Campos de Carvalho. Tá esperando o quê? Vai logo, anda!
E pra você tomar o gostinho, aí vai o primeiro capítulo de A Lua Vem da Ásia.

Capítulo Primeiro

Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? – logrei ser absolvido por cinco votos contra dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.
Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.
A primeira mulher que possuí foi sobre a ponte do Sena, em pleno coração do meu Paris imaginário; e ainda me lembro de que ela me sorria com uns dentes que refletiam as estrelas e as lâmpadas do cais adormecido, e dizia-me coisas numa língua que eu não conhecia. Paguei-lhe à vista, e subi eufórico em direção a uma rua de onde vinham sons de uma mandolinata inenarrável, e que se esvanecia à medida que eu me aproximava, e que acabou por desaparecer de todo. Sentei-me no chão, aturdido, acendi um cigarro e deixei que ele fumasse por si mesmo, e depois morri tranquilamente dentro da noite calma.
Quando despertei, já um gari me estendia o último jornal da tarde, e pude ler então que uma grande hecatombe havia acontecido sobre a cidade de Melbourne, na Austrália, justamente enquanto eu dormia. Lavei meu rosto com o pranto, entreguei o jornal a um menino cego e saí correndo pela primeira rua que encontrei pela frente, até deparar com a estátua do marechal Joffre montado a cavalo.
No dia seguinte, como a guerra houvesse rebentado, apresentei-me a um general de divisão que encontrei espairecendo pelo Bois de Bologne, e ele foi muito gentil para comigo, dando-me uma corneta e cinco mil francos para comprar um uniforme. Com a corneta toquei o Danúbio Azul, mas em surdina, e com os cinco mil francos fui a uma sessão de cinema (um filme de Clara Bow, se não me engano) e dei o resto a um mendigo que me pareceu mais honesto do que os outros – ou do que eu, pelo menos. À margem do Sena pus-me a pensar sobre as incertezas da vida e o absurdo da guerra recém-deflagrada entre o Japão e a China, até que o sono me jogasse de novo de encontro às pedras, as mãos espalmadas como as de um cadáver.
Tudo isso do meu passado eu conto para que se possa ter uma ideia exata da minha situação presente, depois que me deram por excêntrico e me jogaram neste hotel de luxo onde os garçons, o gerente e o subgerente andam todos de branco, e têm também os dentes brancos e não vermelhos ou amarelos como toda gente. Conto, também, porque o dia aqui para mim tem 72 horas, e às vezes mais até, e eu necessito ocupar-me com qualquer coisa que não sejam os mosquitos da sala ou a minha coleção de palitos de fósforo, de há muito superada e já vendida a um nababo hindu que mora no quarto ao lado. Descobri que, escrevendo a história da minha vida, antes que a escrevam os outros ou que não a escreva ninguém, estarei prestando um serviço enorme não só à cultura, por isso que – – –
(Fui obrigado a interromper estas lucubrações para tomar um prato de sopa que me trouxe a gentil senhora do gerente ou do subgerente do hotel – de qualquer forma uma senhora respeitável e vesga, que às vezes me toma a temperatura pelo simples prazer de me ser agradável. Mas a sopa estava bastante amarga, ou assim me pareceu pelo menos.)
Mas eu dizia, se não estou equivocado, que, finda a guerra sino-finlandesa, fui preso como espião moscovita por causa de minhas barbas patriarcais e malcheirosas, e fui submetido a um conselho de guerra composto de 15 mil generais, todos eles fardados, que me absolveram unanimemente e me repatriaram ao meu país de origem. Qual esse país fosse, nem eles nem eu sabíamos, de forma que voltei tranquilamente a dormir sob as pontes de diversos rios da Europa, os quais eu já conhecia de vista através das aulas de geografia que me dava o meu professor de ginásio, ao tempo em que eu ainda teimava em aprender as coisas. Dniester, Reno, Vístula, Guadalquivir, Elba, Nitra, Ródano etc. etc. são nomes que se tornaram familiares aos meus ouvidos de tanto eu ouvi-los murmurar eles mesmos, e não pobres mestres-escolas diante de ensebados mapas grudados à parede; a sua cantilena por muito tempo substituiu o doce acalanto de minha mãe na pátria desconhecida, que de resto nunca cheguei a conhecer, pois nunca fui criança.
Foi por essa época que aprendi a tocar berimbau com um professor do Conservatório de Varsóvia, herr Hepsteimm, e quando também resolvi fazer a minha primeira comunhão, por absoluto estado de fome. Desse aprendizado resultou-me a oportunidade de vir a ser mais tarde nomeado conselheiro musical na corte de Luís II da Baviera, o mesmo que tinha vários castelos assombrados e era dado a práticas de ocultismo, as quais aliás eu não era de todo alheio.
(Mas confesso que o lápis já me pesa na mão como se fora o mastro de um circo ou o próprio eixo da terra, o que me leva a parar de súbito essas reminiscências tão históricas e para mim tão caras, que um dia mostrarei a meus companheiros de hotel para que eles vejam até onde chega a fabulosa aventura humana, desde que – – –

(Primeiro capítulo de A Lua Vem da Ásia, em Obra Reunida, Editora José Olympio.)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

IMPRESSÕES DIGITAIS

"LONGO TRECHO EM DECLIVE" DE A CHAVE DE CASA,
DE TATIANA SALEM LEVY

O livro de tatiana salem levy (boto em minúscula como ela botou na capa do livro) pega a(s) memória(s) de uma neta de judeus turcos, nascida em Lisboa, da mesma forma que a autora, e transforma numa história que agarra o leitor o leva em meio a uma montanha russa de emoções até... Até onde? Até onde nos leva a literatura? Vale a pena ler e descobrir. Ah, a chave de casa ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2008 como melhor livro de autor estreante. E é um lançamento da Editora Record.

Você não pode partir. [Por quê?] Porque não quero, não deixo, porque não é justo. Poderia argumentar que sou muito nova para perdê-la, que você é muito nova para partir. Que não sei caminhar sem um pouco do seu cheiro a me acompanhar, sem suas palavras doces e ternas a me acalentar. Que ainda não estou preparada para caminhar sozinha, que preciso de um pouco mais de tempo. Que preciso de muito tempo. De todo o tempo. Poderia argumentar que há ainda muitas coisas que não fizemos juntas. Que quando estiver triste não terei colo quente para me receber. Que quando tiver medo não poderei me esconder atrás da sua saia. Que não terei a quem dizer que te amo infinitas vezes, sem medo algum, sem receio. Porque só o nosso amor não tem medo. Poderia argumentar que há coisas que nunca lhe disse, coisas que quero dizer. Que você também deve ter histórias para me contar. Que quero você a meu lado para ouvir as aventuras que ainda viverei. Que quero você a meu lado quando eu publicar o meu primeiro livro. Que quero você a meu lado quando eu conhecer o meu príncipe encantado e com ele decidir que o amor é eterno. Que quero você a meu lado quando nascer o meu primeiro filho, e também o segundo e o terceiro. Poderia argumentar isso e mais, porque é infinito o meu desejo de que você fique. Da mesma maneira, sei que há argumentos para a sua partida, que a vida é assim, ela acaba, a morte sempre vem, cedo ou tarde. Mas recuso os argumentos que não venham de mim mesma. E é por isso que grito, esperneio: não parta! Não é justo! E é por isso que berro enquanto espanco o seu caixão de madeira polida: tirem a minha mãe daí! Lanço as mãos ao ar como os que não têm razão, como os únicos que têm razão, e repito: abram o caixão! Mas estão todos sem jeito e envergonhados: coitadinha dela, era tão próxima da mãe. Eles sentem pena mas não me ouvem. É um dia quente de sol, como não devem ser os dias em que partem pessoas queridas. Eles descem o caixão e com largas pás cavam a terra. Não há flores, elas não são permitidas. Há pedras. Eles cobrem o caixão com a terra, deixam você lá dentro, sozinha, e eu aqui fora, sozinha. Paro de gritar, mas me recobro da certeza de estar assistindo a uma grande injustiça, talvez a pior de todas. E penso que se você estivesse aqui tudo seria diferente, que se estivesse aqui certamente me ouviria, abriria o caixão e se tiraria de lá, você se levantaria e viria na minha direção, pegaria nos meus braços e me diria que não há porque sofrer. Se você estivesse aqui certamente secaria minhas lágrimas que caem agora, enquanto lhe dirijo a palavra e você não me escuta, você já não pode me escutar.


POR QUE ESCREVO?

Eu havia caído numa estrada sem volta. Até o dia da minha morte, podia ou não encontrar o sucesso de público, a fama, o dinheiro. Podia ou não ser adorado por multidões de leitores. Podia ou não ser entendido por meia dúzia de especialistas. Qualquer escolha profissional traz esses riscos, e você só fica seguro de que escolheu a carreira certa quando chega à conclusão de que mesmo que dê tudo errado terá valido a pena. De que o fracasso na tentativa ainda é motivo de orgulho, enquanto que ter passado a vida sem tentar seria uma humilhação insuportável, como se você fosse ridicularizado pelo seu próprio destino.

Personagem Pedro, em O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda (CosacNaify).


NOVOS HAICONTOS DE ALICE BARREIRA

“Ei, maninho, mais três vômitos quentinhos saindo do forno onde me torro. Publica aí.”

Ela pediu, o público aplaudiu e aí vão: novos haicontos de minha irmã, Alice Barreira.

JOVEM GUARDA

Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você.
Te tranco num quarto escuro. Arranco teus pelos à pinça. E as tuas unhas, uma a uma. Volto até a fumar, só pra tatuar meu nome na tua virilha, com a brasa do cigarro. Só de pensar, já fico aceso.
Quero ver você fazer manha então.

VOVÓ E OS RATOS

No dia de sua morte, minha avó acordou, tomou seu banho e o café da manhã, como sempre fazia. Mas, ao se levantar da mesa, foi direto para o quarto e de lá começou a esbravejar com os ratos que andavam pelo teto, entravam em seu armário, roíam suas roupas, os retratos da família e alcançavam até a fiação.
Durante todo o dia ela gritou até ficar rouca, mas os ratos riam e riam, pois sabiam que ela já estava morta e que eles nem existiam.

VIDA DE ARTISTA

- Próximo - chamou o descobridor de talentos.
Ele se aproximou: - eu sei tocar a Marselhesa peidando.
O descobridor de talentos acenou com a cabeça e ele peidou toda a Marselhesa. Muitos na fila manifestaram uma surda admiração.
- O que mais você faz? – perguntou o descobridor.
- Eu sei cinco idiomas. Inglês, francês, espanhol, russo e japonês.
- Peidando?
- Não, não. Eu falo esses cinco idiomas.
- E a quem pode interessar isso? Próximo.

Alice Barreira