sexta-feira, 4 de novembro de 2011
O QUE QUE HÁ, VELHINHO?
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
MEUS CAROS AMIGOS NA MESA 5!
AGENDA 2011
Ano novo: tempo de grandes decisões! Sim, porque não basta abortar o aborto. Temos que descobrir o que um embrião pode comprar, como um feto pode ter seu próprio cartão de crédito e até seu celular intra-uterino, por que não? Vamos sonhar grande, gente! Copa do Mundo e Olimpíada é pouco. Vamos democratizar o maior esporte da humanidade: o genocídio. Impossível? Com garra e perseverança nada é impossível. Que tal uma nova loteria, onde toda semana o feliz sorteado ganhe o direito de matar cem pessoas à sua escolha, hã? E campanhas na internet: “Você também pode matar alguém de fome. Participe, colabore!”
Então, pessoal, temos nas mãos um ano novinho em folha. Vamos lá! Vamos criar bombardeios ecológicos. Isso! Bombas que arrasem os países mas deixem intactas plantas e anglo-saxões. E ofereçam desconto nas emissões de carbono. Já imaginaram? Matar iraquianos e afegãos e ainda despoluir o planeta? É desses exemplos que nossas crianças precisam, para crescer e se tornar cidadãos que lutem pelas melhores tradições de nossa civilização.
E os mortos? Os mortos são muito injustiçados. Só porque alguém morreu não pode mais votar nem comprar nem casar e ter filhos. Está certo isso? Afinal, qual a diferença entre estar vivo ou morto hoje em dia? Você vai dizer que um morto não respira, não se alimenta nem sai andando por aí. Mas com esses engarrafamentos, o ar poluído desse jeito e essas comidas fast-food cheias de glúten e gordura trans, quem é que ainda quer respirar, comer e se locomover? Os mortos é que estão certos. Eles é que são vivos.
Então, pessoal, avisem ao Vaticano, ao Obama e ao G-20 que já temos a agenda para 2011: vamos matar e vamos morrer. Que nem moscas.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
MEUS CAROS AMIGOS NA MESA 5!
Aí vai minha crônica da revista Caros Amigos que já está nas boas bancas do ramo.
EM DIANTE
Oi, amor,
Te deixo esse bilhete pra dizer que você tem razão e que eu vou mudar minha vida. Passei a noite em claro e graças à internet pensei muito e já decidi tudo. Querida, lendo meus e mails eu percebi que a motivação pessoal é fundamental para o sucesso e me matriculei no curso de Comentários sobre o Sistema de Apuração Simplificada e o Preenchimento de Suas Fichas.
Você não deve estar acreditando, eu já falei que ia mudar outras vezes, mas agora é pra valer. E foi a internet que me abriu os olhos. A internet! Incrível como as coisas estão na nossa cara e a gente não vê. Mas eu já estou passando por mudanças. Quer ver? Me matriculei no MBA de Ferramentas na Gestão Corporativa e Potencializadora do Diferencial Produtivo Para o Desenvolvimento de Aptidões Empreendedoras.
Por essa você não esperava, hã? Minha transformação é radical, aquela que você sempre brigou pra eu fazer. Sim, porque você pensa que acabou? Não! Também vou fazer o Treinamento em Overview para a Dinâmica de Equipe na Travessia da Administração do Trabalho Gestor. E vou me capacitar para os Dez Conceitos de Justiça por Merecimento e Aprendizado Organizacional na Gestão Praticada. E tem mais: vou implantar os conceitos em foco, assentar parcerias estratégicas para o fechamento e constituir alianças que possibilitem. E também vou oferecer ferramentas específicas de percepção do perfil predador na postura proativa sob situações e vou criar cenários interativos e dialógicos à distância do repertório do olhar do interlocutor. Imagina só, meu bem: do olhar do interlocutor!
Amor, eu sou um novo homem. Você duvida? Pois eu provo: solicitei pra hoje mesmo o programa completo pela Central de Atendimento!
sábado, 13 de novembro de 2010
“A LÍNGUA PORTUGUESA É MINHA PÁTRIA”
Rubem Braga
Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?
O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.
Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.
Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" — mas não o fiz para não entristecer o homem.
Espero que uma velhice tranqüila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).
Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua". Mas acho que isso é exagero.
Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.
Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.
Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da "Última Hora" ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de "O Globo?".
No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.
Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!
Rio, novembro, 1951
(Texto extraído do livro "Ai de Ti, Copacabana", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.)
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
SALTA UMA CAROS AMIGOS NA MESA 5!
Já está nas melhores bancas do ramo a nova edição da revista Caros Amigos. Além deste cronista que vos fala (e cuja a crônica vós podeis ler abaixo), a revista traz: entrevista com o jurista Fábio Konder Comparato, a perseguição ao Funk, a luta política na Venezuela, a destruição contínua do Iraque pelos EUA, as mulheres no Irã, as favelas incendiadas em Sampa e muito mais, sem falar no timaço de colunistas que todo mês dá um show de bola por lá. Vai já na banca comprar. Anda, seu preguiçoso! Depois você lê a minha crônica aí embaixo. Vai!
LEIA ESTA CRÔNICA E VENÇA NA VIDA!
Acabaram-se as eleições, estamos livres dos mentirosos do horário eleitoral e podemos voltar a mentir por conta própria e a qualquer hora. Eu já comecei lá no título da crônica. Você não vai vencer na vida lendo isso aqui nem fazendo coisa alguma. A vida termina sempre com uma derrota chamada morte. E ponto.
Só que essa afirmação também pode ser mentira. A mentira é só uma verdade que esqueceu de acontecer, mas ela vem sendo perseguida através dos tempos. Mentir é feio, é pecado, é anti-ético, é contra-revolucionário. Cada um tem seus motivos pra condenar a mentira e no entanto não fazemos outra coisa a não ser mentir. Acordar e dar bom dia a essa altura da humanidade é mais do que otimismo: é cascata pura. O planeta não tem recursos pra sustentar nosso consumo e a temperatura vai subir até derreter todos nós: bom dia por quê? Além disso, você está indo pra praia, pra um barzinho tomar caipirinhas, pra um cineminha e vai fechar o dia no motel? Ou vai deixar as crianças atrasadas na escola, se meter no metrô lotado e ir pro trabalho, aturar seu chefe? Bom dia? Você só pode estar de sacanagem!
Mas não se desespere: eu minto, tu mentes, ele mente. Eis a verdade nua e crua. Contar lorotas, potocas, patranhas, imposturas, enganos, fraudes ou falsidades já virou até profissão. Está aí a publicidade que não nos deixa mentir, porque mente primeiro e com muita verba. E nem Deus escapa: se Caim mentiu quando Ele perguntou onde estava o Abel, Deus mentiu primeiro, quando fingiu que não sabia. Ele não é onisciente e onipresente?
Então, vamos descriminalizar a mentira já! Afinal, diga a verdade: tem coisa melhor do que mentir?
terça-feira, 31 de agosto de 2010
SALTA UMA CAROS AMIGOS NA MESA 5!
Saiu do forno o novo número da revista Caros Amigos, com 3 entrevistas quentinhas: Marcio Pochmann, professor da Unicamp e presidente do IPEA, analisa o país e sua desigualdade histórica. É um prato cheio! E pra matar sua fome de informação, o professor da UFRJ José Luís Fiori fala da atual crise européia. E pra rebater: Inezita Barroso e seus 30 anos no comando do programa “Viola Minha Viola”. De sobremesa: os 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, a nova onda do cinema latinoamericano e a arte nordestina na Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro. E por conta da casa ainda tem uma porção bem servida de colaboradores. Depois dessa, traz a minha crônica na pressão aí embaixo e fecha a conta! (Mas ainda tem o aperitivo: saiu também um número especial da revista só sobre eleições. Assim não há regime que aguente!)
OS TUPINAMBÁS E A FORMAÇÃO DO NOVO MUNDO EUROPEU
Não foi por acaso que, em 1500, os Tupinambás saíram do porto do Rio de Janeiro e navegaram até as terras do Novo Mundo, batizando-as de Europa. Eles sabiam muito bem o que iam fazer por lá: levar o primeiro processo de globalização ao continente desconhecido.
É verdade que de início se limitaram à retirada do Pau-Europa, mas com o ciclo da beterraba iniciaram a produção de açúcar, que exportaram para todo o Velho Mundo, desde a Argentina até o Canadá. Junto com o lucro vieram os conflitos com os índios europeus – franceses, ingleses, portugueses, espanhóis e os temidos holandeses, que se aliaram aos Xavantes quando estes invadiram o Nordeste da Europa em 1630, liderados por Juruna de Nassau e sua Companhia Xavante das índias Ocidentais.
Nos anos 1700, para explorar o ouro descoberto no interior da Europa, os Tupinambás são obrigados a importar mão de obra estrangeira, já que a indolência do europeu o torna incapaz de trabalhar nas minas. É criado assim o tráfico negreiro para a Europa, que dura até 1888, quando os Tupinambás promulgam a Lei Áurea e dão liberdade a todos os escravos.
No século XX, chegam as guerras de independência, com Churchill, De Gaulle, Stalin e outros líderes terroristas sacudindo uma Europa até então pacífica. E se no século XXI já não há mais colônias, há os populistas como Sarkozy e Berlusconi oferecendo milagres à população.
Mas a dura realidade histórica é que nada disso altera o quadro do subdesenvolvimento europeu. Afinal, seria ele resultado de séculos de imperialismo tupinambá ou do inóspito clima frio do continente somado à preguiça natural dos índios, sejam eles ingleses, portugueses, franceses ou alemães?
Cesar Cardoso é historiador e leciona na University of Tchucarramãe.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
CAROS AMIGOS
Segue a minha crônica que está na revista Caros Amigos de julho, já nas melhores bancas do ramo. Neste número temos uma imperdível entrevista com Frei Betto, refletindo sobre as eleições, o Brasil de hoje e sua história e otras cositas. E mais o time de craques de sempre.
OS TUPINAMBÁS E A FORMAÇÃO DO NOVO MUNDO EUROPEU
Não foi por acaso que, em 1500, os Tupinambás saíram do porto do Rio de Janeiro e navegaram até as terras do Novo Mundo, batizando-as de Europa. Eles sabiam muito bem o que iam fazer por lá: levar o primeiro processo de globalização ao continente desconhecido.
É verdade que de início se limitaram à retirada do Pau-Europa, mas com o ciclo da beterraba iniciaram a produção de açúcar, que exportaram para todo o Velho Mundo, desde a Argentina até o Canadá. Junto com o lucro vieram os conflitos com os índios europeus – franceses, ingleses, portugueses, espanhóis e os temidos holandeses, que se aliaram aos Xavantes quando estes invadiram o Nordeste da Europa em 1630, liderados por Juruna de Nassau e sua Companhia Xavante das índias Ocidentais.
Nos anos 1700, para explorar o ouro descoberto no interior da Europa, os Tupinambás são obrigados a importar mão de obra estrangeira, já que a indolência do europeu o torna incapaz de trabalhar nas minas. É criado assim o tráfico negreiro para a Europa, que dura até 1888, quando os Tupinambás promulgam a Lei Áurea e dão liberdade a todos os escravos.
No século XX, chegam as guerras de independência, com Churchill, De Gaulle, Stalin e outros líderes terroristas sacudindo uma Europa até então pacífica. E se no século XXI já não há mais colônias, há os populistas como Sarkozy e Berlusconi oferecendo milagres à população.
Mas a dura realidade histórica é que nada disso altera o quadro do subdesenvolvimento europeu. Afinal, seria ele resultado de séculos de imperialismo tupinambá ou do inóspito clima frio do continente somado à preguiça natural dos índios, sejam eles ingleses, portugueses, franceses ou alemães?
O autor é historiador e leciona na University of Tchucarramãe.
HOJE É DIA DE VISITA
Quem visita o Patavina’s hoje é o escritor e músico Thiago David. Com 23 anos, Thiago faz parte da banda 27, onde ele compõe, canta e toca violão. Carioca, Thiago também faz curta-metragens, está de mudança pra Salvador, onde vai concluir seu curso de comunicação, e continua escrevendo e compondo em qualquer lugar do planeta. Ele já foi corredor e hoje é gordinho. Mas isso já é uma conversa para a crônica aí de baixo. Leia e confira.
SER GORDINHO
Thiago David
Ser gordinho não é só viver em uma camisa apertada: É muito mais! Ser gordinho é sorrir todos os dias por não ser escravo dos exercícios aeróbicos e rir interminavelmente por saber que seus desejos, independente das calorias, serão consumados.
Ser gordinho é ser a pessoa mais confortável para se abraçar em qualquer ocasião. É ter sempre uma balinha de sobra no bolso e usá-la para começar conversas com estranhos. É poder rir da própria pança enquanto tira sarro de outro gordinho mais gordinho. É jogar futebol na defesa, ser o melhor zagueiro e achar graça de magricelos enfezados gritando nomes esféricos como crítica ao seu bom desempenho na vitória de quatro a zero. Ser gordinho é viver com leveza.
Ser gordinho é ser adorado por todas as mães e todas as avós que se deliciam ao ver seus pratos sendo devorados com gosto até o último grão de arroz. É ganhar uma roupa apertada de uma tia distante e afirmar que a roupa irá alargar com o tempo. É chegar ensopado do próprio suor em casa e saber que um banho e um ar-condicionado te deixarão novinho em folha. É poder beber quatro copos de uísque, cinco taças de champanhe e inúmeras latinhas de cerveja e não ficar tresloucado como brotinhos que só tomaram um cálice de vinho do porto. Ser gordinho é ouvir conselhos de moderação e ir para o cardiologista só para confirmar que as pontadas no peito eram gases.
Ser gordinho é morrer de preguiça de andar até a esquina em qualquer tarefa cotidiana, mas caminhar intermináveis quarteirões para comer um hambúrguer com os amigos em qualquer dia da semana. É saber que ovo já foi proibido e já foi liberado, que vacas comem capim e são suculentas. Ser gordinho é passar a manhã petiscando, comer alguns pratos no almoço, ficar triste por não ter sobremesa e fazer as contas de quanto tempo falta para a janta. Ser gordinho ir para o rodízio de pizza fazer competição de quem come mais fatias sabendo que vai ganhar e às vezes perder para um magrelo sem vergonha com metabolismo bichado.
Ser gordinho é ter o eterno bom humor de quem tem certeza que a vida deve ser degustada e saber que sua barriga é uma afirmação de sua personalidade. É compreender que Buda também foi gordinho e por isso que ele era tão gente boa. Ser gordinho é brincar com grávidas de quem está com mais meses, é ter mais peito do que pré-adolescentes, é ser o travesseiro perfeito para a namorada durante aquele filme em dia de frio. Ser gordinho é ser seu próprio casaco.
Ser gordinho é fazer da vida um farto buffet e saber que sempre terá algo a mais para ser provado.
(Inspirado na crônica "Ser Brotinho", de Paulo Mendes Campos)
domingo, 4 de julho de 2010
UM CASO CRÔNICO
Todo homem é inocente até prova em contrário. Menos o goleiro. O goleiro é culpado, mesmo que haja prova em contrário. O goleiro mete a mão aonde não foi chamado.
Enquanto todos viajam no campo, esquadrinhando seus quatro cantos, o goleiro vive trancado na grande área. Como um cão. Ou um prisioneiro. E ai dele que tente fugir! Será vaiado pela sua torcida, escorraçado por seus próprios companheiros de time. Mas ele não sai dali. Só olha para longe quando bate o tiro de meta. E jamais seus olhos buscam o outro goleiro. Não existe outro. O goleiro é único.
A palavra goleiro vem de gol, mas o goleiro de carne e osso vive para evitar o gol e renegar sua origem. E segue carregando o gol em seu próprio nome como uma maldição, uma doença que não se cura nunca.
Sim, ele pode tocar com a mão na bola. E só ele pode. Mas não mostra superioridade, não. Na verdade, ele teme que todos em campo o odeiem por isso. E realmente todos em campo o odeiam por isso. É por esse motivo que ele veste luvas. Não para segurar melhor a bola, mas para não sentir a pele dela em sua pele. Para fugir do pecado original. Mas não adianta. A bola é sua maçã e ele a perseguirá, condenado, através dos tempos.
Tem muitos nomes o goleiro. Arqueiro, guarda-meta, guarda-rede, guarda-valas, guardião, golquíper, quíper, vigia. Mas ninguém o chama. Quando muito o xingam.
O desejo de todo goleiro é sonhar com suas grandes defesas. Eles as relembram antes de dormir, mas assim que pegam no sono o que surge é outra matéria. É o pelotão de fuzilamento do pênalti. É a vergonha e a humilhação do frango. É o olhar de superioridade do artilheiro, que acaba de vencê-lo. É o choro que ele provocou em seu zagueiro. Por isso acordam sempre suados e sobressaltados os goleiros. Por isso disfarçam as olheiras.
Não existe goleiro violento nem raçudo. O goleiro é cálculo. Régua. Equação. Pensa em teoremas todo o tempo. Até o segundo em que faz a defesa, se levanta e olha em torno. Então, antes de repor a bola em jogo, ele se dá conta de que, enquanto ela está em suas mãos, não há jogo. Ele percebe que é o anti-jogo, é o antônimo. É a perda onde tudo busca.
Mas o que é preciso afinal para ser um goleiro? Saber sair do gol? Manter o sangue frio? Como se treina um goleiro? Pra que serve um goleiro num mundo de artilheiros? Por que usar as mãos se a habilidade está nos pés? Do que ele precisa? Aumentar a elasticidade? Treinar até o fim da noite? Dormir abraçado com a bola? Sair do gol, espalmar, botar pra escanteio, bater roupa, dar golpe de vista? Ou aprender que a bola, razão do jogo e de sua vida, só se ocupa em fugir dele?
O estádio já está deserto. E adormecido, como dizia o locutor. Na madrugada quente ouvem-se apenas e levemente, em seu gramado, os passos do goleiro. É Pompéia, o Constellation, voando acima das traves. É Manga segurando a bola com apenas uma das mãos e amargando a tarde em que chutou-a na nuca de um russo e ela, de vingança, se atirou contra seu gol. É Gordon Banks tentando até hoje descobrir o que o fez saltar e defender a cabeçada de Pelé. É Marcos Carneiro de Mendonça e sua fita roxa, defendendo pênaltis e fazendo versos para a amada. São as acrobacias de Chilavert, montando um circo na pequena área. É Yachin, o Aranha Negra, que fumava para se acalmar e tomava vodka antes do jogo para ficar em forma. É Carrizo confessando que se lembra muito mais dos gols que fizeram nele do que dos chutes que defendeu. É a camisa amarela de Raul tirando a pontaria dos artilheiros. É a leiteria de Castilho, que cortou um dedo para voltar a jogar mais rápido. É Valdir, que não resistiu e fez um gol contra, talvez tentando entender a alegria dos goleadores. É a frieza de Gilmar e a tragédia de Barbosa, que passou o resto da vida tentando evitar o que já fora. É Rogerio Ceni fazendo gols como quem se encontra às escondidas com a amante. É Andrada ainda esmurrando o gramado e sendo o único ser humano a amaldiçoar o milésimo gol de Pelé.
Uma legião de goleiros, caminhando ao fundo das redes e trazendo de volta a bola.
terça-feira, 22 de junho de 2010
UM CASO CRÔNICO
(Eles fazem gols com a ajuda de Deus, eles peidam silenciosamente no sofá domingo à noite, eles pedem mais um chopp e riem, eles reformam a porta do banheiro, eles investem em fundos arrojados, eles choram segundas pelo ano inteiro, eles se emocionam com o trabalho de fim de ano dos filhos na escola, eles gostam do índice nasdak, eles aproveitam o almoço para contar aquela grande piada, eles investigam as palpitações, eles deixam um recado na caixa postal pedindo “calma, mamãe”, eles sentem saudades do pré-molar, eles acham o país uma grande piada, eles param de fumar, eles dão graças a Deus.)
(Elas levam o cachorro para passear, elas nunca dizem não, elas têm questões importantes para colocar na reunião de condomínio, elas recomendam o sal para a carne e o silvo para a bandeja de prata que pertenceu à avó, elas compram ração pro cachorro, elas alugam os olhos pras novelas, elas levam os filhos para fazer tatuagem, elas aprendem a ginástica para sorrir com todos os seus dentes, elas nunca dizem sim, elas acompanham atentas os avanços da ciência domingo à noite, elas acreditam na importância do air bag, elas combatem a prisão de ventre, elas limpam as patinhas do cachorro ao voltar para casa.)
(Eles se dividem entre São Paulo e Rio, elas controlam a osteoporose, eles querem saber que poça é essa no elevador, elas não sabem onde colocaram os óculos, eles selecionam com critério o que vão deixar nas mãos de Deus, elas checam os e mails, eles se opõem firmemente, elas nunca mais na vida irão à Serra Gaúcha, eles usam a manhã de sábado para analisar os novos modelos de celular, elas quebram as unhas com tanta facilidade, eles pensam em frango com cenoura, elas talvez troquem de hobby, eles querem parar de fuder com a mulher do amigo, elas lutam pelo desentupimento da pia, eles já sabem, elas evitam, eles gostariam de escolher as meias, elas examinam a pele do cachorro, eles cheiram a marca de baba no travesseiro dela, elas não sabem onde anotaram a senha da mala de viagem, eles julgam que o melhor tempo para o sleep da televisão é noventa minutos, elas aproveitam as tardes de quinta para se masturbarem, eles levitam, elas burkam, eles quase nunca esquecem o remédio, elas deixam tudo encaminhado, eles tingem, elas se dirigem à, eles só não gostam da decolagem, elas analisam os sintomas, eles se ajoelham, elas pensam em batizar o cachorro.)
(Sugestão ao leitor: substitua ela por ele e ele por ela. Releia.)
Esta crônica faz parte do livro “Venha Ser Um Criminoso”, a ser lançado ainda neste milênio.
sábado, 10 de abril de 2010
UM CASO CRÔNICO
(Eles fazem gols com a ajuda de Deus, eles peidam silenciosamente no sofá domingo à noite, eles pedem mais um chopp e riem, eles reformam a porta do banheiro, eles investem em fundos arrojados, eles choram segundas pelo ano inteiro, eles se emocionam com o trabalho de fim de ano dos filhos na escola, eles gostam do índice nasdak, eles aproveitam o almoço para contar aquela grande piada, eles investigam as palpitações, eles deixam um recado na caixa postal pedindo “calma, mamãe”, eles sentem saudades do pré-molar, eles acham o país uma grande piada, eles param de fumar, eles dão graças a Deus.)
(Elas levam o cachorro para passear, elas nunca dizem não, elas têm questões importantes para colocar na reunião de condomínio, elas recomendam o sal para a carne e o silvo para a bandeja de prata que pertenceu à avó, elas compram ração pro cachorro, elas alugam os olhos pras novelas, elas levam os filhos para fazer tatuagem, elas aprendem a ginástica para sorrir com todos os seus dentes, elas nunca dizem sim, elas acompanham atentas os avanços da ciência domingo à noite, elas acreditam na importância do air bag, elas combatem a prisão de ventre, elas limpam as patinhas do cachorro ao voltar para casa.)
(Eles se dividem entre São Paulo e Rio, elas controlam a osteoporose, eles querem saber que poça é essa no elevador, elas não sabem onde colocaram os óculos, eles selecionam com critério o que vão deixar nas mãos de Deus, elas checam os e mails, eles se opõem firmemente, elas nunca mais na vida irão à Serra Gaúcha, eles usam a manhã de sábado para analisar os novos modelos de celular, elas quebram as unhas com tanta facilidade, eles pensam em frango com cenoura, elas talvez troquem de hobby, eles querem parar de fuder com a mulher do amigo, elas lutam pelo desentupimento da pia, eles já sabem, elas evitam, eles gostariam de escolher as meias, elas examinam a pele do cachorro, eles cheiram a marca de baba no travesseiro dela, elas não sabem onde anotaram a senha da mala de viagem, eles julgam que o melhor tempo para o sleep da televisão é noventa minutos, elas aproveitam as tardes de quinta para se masturbarem, eles levitam, elas burkam, eles quase nunca esquecem o remédio, elas deixam tudo encaminhado, eles tingem, elas se dirigem à, eles só não gostam da decolagem, elas analisam os sintomas, eles se ajoelham, elas pensam em batizar o cachorro.)
(Sugestão ao leitor: substitua ela por ele e ele por ela. Releia.)
sexta-feira, 5 de março de 2010
SAMBLUES – de onde é que vem o baião?
Mulher combina com música? As duas trazem uma alegria que ninguém sabe de onde vem? Bom, pra comemorar a música, a mulher e o dia 8 de março, com vocês...
MULHERES CANTADAS
O que nos move é a solidão, nos levando a tantos encontros que não sejam o encontro final. E vamos, pedalando pautas, mastigando letras, descobrir as vaidades de Amélia, ela deve tê-las, escondidas na caixa de costura, sublimadas na unha roída, nós vamos, vamos amar Amélia de verdade e tanto até saber sua mentira e pranto. E se eu ficar só, minha Rosinha vem correndo me esperar. Seu nome? É Maria Rosa, seu sobrenome? Ou Narinha ou Betânia ou Dolores ou Renata ou Leilinha ou Dedé. Gente do sexo feminino, gente de som e sombra tão somente. Gente que não pegamos e que nos acende, um mistério, um mistério que tem Clarice e ninguém descobre, no máximo o peito percebe. E Madalena sabe disso. E Conceição lembra tão bem. E até Aurora lembra. Mas finge que não, nunca sincera. E eu que não aguento, eu morro e ainda levarei saudades dessa Aurora, que me despreza, sem sentimentos e ri, ela ri, Irene ri, comadre Sebastiana grita, a, é, i ó, u, na cartilha da Juju, em português, ou da Jou Jou, meu Balangandãs francês, nós dois. Mas como nós dois? Estou só, Jou Jou, sem depois. E o que me paralisa é a solidão.
Mas o que nos tira da angústia e nos leva pro sonho? O sonho onde você não foi pra assistência, Iracema, você nem travessou contramão, meu amor. Mas acabou ficando só. Januária na janela me conquistou. E eu me dei por vencido? Nunca! Preferi boiar nas lágrimas dos olhos fundos de Carolina. Mas Carolina não viu e me chorou pra longe, pro Irajá, onde procurei Kátia Flávia, ou lá pra Martinica, onde descasquei Chiquita Bacana, e a Rita levou meu sorriso e com ele todas as minhas palavras de amor. Restei mudo e só. Emília! Emília! Emília! Eu não posso, você é a minha interjeição, meu único grito, minha tábua de salvação ou de mandamentos. Não cobiçai a canção do próximo! Mas como não cair em tentação diante de Rosa morena, de Dora rainha, de Jandira da Gandaia ou Joana de Tal, por causa de um tal João. A gente sofre, a gente chora, a gente some, mas diz lá pra Dina que eu volto, diz pra Etelvina que acertei no milhar, diz pra Clara Crocodilo que fui ver Cristina... não! Nada de recados, dizer não resolve. Doralice, eu bem que te disse! E ela se foi com o primeiro João Gilberto que apareceu. Pois que se dane, eu nem ligo! Eu? Eu adoro a Julieta, eu disse a Izaura que não podia ficar, esqueci os domingos e as frutas na feira de Lindonéia, encontrei Eduardo e nem perguntei por Mônica e também esqueci de Teresa da praia e de tantas outras Teresas negas e Terezinhas e Luizas e Ligias e Mauras e Drãos e até Genis. Fui e pronto! Fiz o que quis!
Sim, mas o que nos acorda no meio da noite? Ah, pra que eu fui dizer aquilo? Ah, por que eu não voltei? Se a saudade mata a gente, o remorso nos deixa vivo e nos corrói lentamente. Ah, Dindi, se soubesses... Maura, vem matar o meu prazer, que é viver embriagado... Hoje, quem é Gabriela? Cadê Iaiá do Cais Dourado? Onde morena Marina? O que é feito de Odete, que ouvia o meu lamento? Não provo mais a moqueca de Idalina, não danço uma xiba com tia Eulália, não provo o feijão da Vicentina, não vejo o sapateado de Dona Maria Luiza. Se não fosse dona Augusta e a dona Carola... nem sei o que seria, nem sei o que eu seria. E nem descobria que, Maria, teu nome principia. Tua pessoa, Maria, são tantas Marias, ninguéns, todas mulheres de Atenas, e todas brasileiras apenas, a duras penas. Mulheres cuja carne é verbo e o sangue, canção. Mulheres que não existem, fazendo e sonhando as mulheres que existirão.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
MEUS CAROS AMIGOS
Aí vai minha crônica de fevereiro na revista Caros Amigos, que já está nas boas bancas do ramo e traz uma entrevista com o educador Moacir Gadotti, a polêmica sobre a caixa preta da ditadura, que a direita não quer abrir, a crise capitalista e planetária, as eleições em 2010, Evo Morales, a arte de pichadores e grafiteiros e o time de craques de sempre com Ana Miranda, Joel Rufino dos Santos, Ferréz e muito mais.
SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO
15/3
Saiu o plano de reestruturação da empresa na Nova Etapa de Superação. E eles explicaram que não houve demissões e sim realocamentos de vínculos.
26/3
Recebi a avaliação da reorganização cambiante. Foi muito bom saber que atingi as metas. Há um mês que me telefonam pela manhã dizendo qual a minha tarefa do dia e em qual dos escritórios ela deve ser realizada. Isso estava me deixando muito inseguro.
13/4
Com o novo plano de carreira não sabemos mais quem são os gerentes. Alguém comentou que caberia a eles controlar o número de vezes que vamos ao banheiro. Mas logo um comunicado-adendo garantiu que o que há é uma medição higiênica inserida nos planos abrangentes de saúde. Deixei para mijar em casa.
30/4
Mudei de cidade pela terceira vez. Minha mulher decidiu se separar. Mas o setor de reengenharia familiar demonstrou que pela alínea b da cláusula 5 do contrato de troca de serviços ela é obrigada a me acompanhar. Não posso negar que fiquei feliz. Até porque eles já haviam negado o visto de co-moradia para meu filho, que teve que ir morar com os avós.
16/5
Tenho bebido muito ao chegar em casa. Foi o que eles disseram.
24/5
Contei ao psiquiatra indicado pelo departamento de felicidade que estou abandonando o emprego, que estou abandonando tudo. Isso mesmo, vou me matar.
25/5
Estive com o psiquiatra ontem à noite e hoje bem cedo recebi um comunicado-adendo avisando que pelas regras flexibilizadas de relacionamento pessoal não estou autorizado a me suicidar e toda a minha família pagará pesadas multas por muitos anos se isso vier a acontecer. Fiquei impressionado com a velocidade com que eles me responderam. Mas o dinamismo era um dos principais pontos do plano de reestruturação da empresa na Nova Etapa de Superação, não era?
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
BARATA VOA - vale tudo, menos porrada –
O METEORO
Todo filme é de época. Toda época é cega. Depois do Renascimento, da imprensa e das grandes navegações, vivemos o Remorrimento. Temos mil capacidades de nos destruirmos. E ao planeta. Depois dos minutos de fama, agora cada um de nós agora terá direito a 15 segundos de terror, jogando uma bomba no seu lugar ou no seu inimigo preferido.
Mas todos eles estão errados, a lua é que quem, afinal? Talvez dos trans-homo sapiens, que do futuro nos pensam, a nós, que desaparecemos. A espécie Homut substitui a humana. Depois do ie-ie-iê, o gen-gen-gen. E vamos tomando ciência pela manhã, bebendo tecnologia pela noite e vomitando história na madrugada.
Eis aqui esse marzinho feito de uma margem só, outras margens vão surgir mas a nossa é uma só. E naufragamos. Isto é a consequência do que acabo? Talvez, mas não é a morte. Graças aos laboratórios criamos guelras e voltamos ao fundo do mar, como a primeira ameba. Lá estaremos a salvo da do terremoto que engoliu o Japão, do espirro que dissolve o cérebro, da gravidez em orelhas de rato? Encontraremos entre as algas mortas a vacina contra deus?
Num mundo tecnopântano rezamos. Apenas nos últimos quatro meses nasceram 428 messias, passearam pelos céus de cianureto 12 mil legiões de anjos com espadas de fogo, de laser, de fibra ótica, de espuma, de nuvem, holográficas. Oitocentas novas bíblias estão sendo escritas no ciber-espaço. Mil e 200 candidatos a Jesus se inscreveram para as próximas eleições. E tudo com desconto no Amazon.
Mas as tentações não nos deixam cair. Grandes corporações escrevem poesia. As indústrias das armas dançam balé. Os cartéis das drogas tocam sonatas. E os discursos se falam sem precisar mais das bocas, das faringes, das cordas vocais, do ar nos pulmões. O silêncio foi proibido em todo o território internacional e todas as letras S foram transformadas em cãezinhos para crianças pela reengenharia genética. Liberdade, liberdade, abre as patas sobre nós.
Todos os fatos são pardos. Que importância têm as coisas? Chips subcutâneos nos fazem reproduzir, escolhem a programação do compceltv, autorizam as compras, bombardeiam países. O fundamentalismo ao alcance de todos. A catatonia em três lições. Os dez pixels para a felicidade.
Até que o meteoro louco veio do nada e nos desdisse a todos.
Alice Barreira