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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,
Passei a manhã no Lower East Side, entre gente do mundo inteiro e a mistura de muitos passados. Depois fui ao Museu de Arte Contemporânea pra equilibrar. Os curadores continuam mandando na nova Bolsa de Valores que é a arte contemporânea. Por fim caminhei uns cinco quarteirões até o Sammy’s Roumanian, onde tomei uma sopa de miúdos e agora saboreio fígado picado acompanhado de mamaliga com queijo, enquanto bebo uma tuica, que é uma cachaça feita de ameixa e forte como o diabo! Aproveito para te mandar a mais recente criação do nosso cantador atômico, Patavina do Alcaçuz. Ele me fez duas promessas: continuar escrevendo para que eu possa por fim organizar o livro com suas poesias e te processar por usar o nome dele para batizar teu blog.

Abracadabraço do
Jean Prévert

O POETA PATAVINA DO ALCAÇUZ
CONVIDA O DESPEITÁVEL PÚBLICO
A CONHECER O ENCOBRIMENTO DO BRASIL

o meu nome é patavina
verso como quem navega
seja no mar da poesia
seja no álcool da adega
chamo a verdade de irmã
e a mentira de colega
e vou contar a história
da nau que ficou às cegas
dizem que até hoje
pelo mar ela trafega

dizem, mas ninguém prova
só se sabe que cabral
era o chefe da esquadra
onde estava essa nau
eram bem mais de mil homens
saídos de portugal
mulher? não tinha nenhuma
nada de xota, só pau
e nem sabiam onde iam
ô que viagem legal!

foi no brasil que chegaram
cabral e sua cambada
debaixo de bruta chuva
viram as índias peladas
mas em vez de tirar a roupa
e cair na batucada
encher a cara de uca
bacalhau com feijoada
vestiram os índios todinhos
com hóstia, missa e porrada

mas uma das 13 naus
não chegou a aportar
foi a de vasco ataíde
que se perdeu pelo mar
e achou outro brasil
muito melhor que o de cá
pois num dia cheio de sol
aqueles índios de lá
despiram os portugueses
e foram comemorar

com todo mundo pelado
começou logo a festança
tinha comida e bebida
mais maconha e fudelança
passaram-se oito meses
sem sequer parar a dança
o vasco ataíde doidão
enchendo a pica e a pança
e quem vai lembrar d’el rei
vivendo nessa bonança?

mas o escriba da nau
que era primo de caminha
fez parar aquela zona
começou a ladainha
lembrando da obrigação
com el rey e a rainha
e temos a fé em cristo
pra salvar essa gentinha
serão nossos escravos
andando sempre na linha

vasco ataíde então disse
você é um soldado leal
bote tudo numa carta
e leve pra portugal
como só tem um navio
vais a nado, animal!
e se não quiser cumprir
esta missão bestial
podes ficar por aqui
sentadinho no meu pau

os índios e os portugueses
voltaram pra putaria
tacaram fogo na nau
assim ninguém mais fugia
decretaram só uma lei
aqui não tem mais chefia
a farra começa de noite
mas não acaba de dia
porque farra nessa vida
é o que tem serventia

batizaram aquela terra
brasa-braseiro-brasil
descoberto por acaso
bem no primeiro de abril
cagaram para el rey
e aposentaram o fuzil
juro que é tudo verdade
ainda não estou senil
e quem duvidar do que eu conto
vá pra puta que o pariu

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PATAVINA’S NEWS

Nosso correspondente Jean Prévert
direto de N.York

Meu caro Cesar,
O sol me esquenta nesse banco do Central Park e eu batuco essas linhas pra você e pro PATAVINA’S. Desta vez te apresento Miklós Pörkölt, um escritor húngaro que acaba de ser publicado pela Gulliver’s Travels, uma pequena editora novaiorquina com nome de gigante. O texto que apresento faz parte do livro “Venha Ser Um Criminoso”, onde Miklós debocha de tudo que existe na Hungria de ontem e de hoje. (E que também existe espalhado pelo mundo, é claro.) Nesse texto ele também se revela um discípulo de Jonathan Swift e apresenta uma solução gastronômica de pouco custo para os paladares mais exigentes, húngaros ou não.
Abracadabraço do
Jean Prévert

RECEITAS MAGIARES

Desde o século IX a Cozinha Magiar, ou Húngara, como alguns preferem, vem se construindo junto com a nacionalidade. É um dos pontos altos de nossa cultura, junto com a matemática e os massacres. Não somos apenas um goulash cheio de páprica e pimenta preta. Na verdade nosso prato preferido é o caldo de culturas, uma mistura de otomanos com ocidentais, de resultados indigestos se não for bem preparada. E por vezes, até mesmo se for.
O Danúbio reclama de cruzar este país onde só existem planícies, mas nós adoramos seus peixes, como o tisza e o neusiedl, e nos esmeramos a criar molhos para prepará-los. Mas hoje vamos conhecer um prato típico das grandes cidades húngaras, modernizadas graças à economia de mercado.

A empregada.
A empregada é uma carne de segunda, mais barata mas nem por isso menos saborosa. E por ser um prato bem popular deve ser acompanhado de uma Slivovitz Pálinka, nossa melhor aguardente de ameixa. Mas nossa receita traz um toque de sofisticação.

EMPREGADA AO CREME DE LARANJA COM COUVE DE BRUXELAS

Ingredientes:
Uma empregada nova, de porte médio.
Dez tomates amarelos.
Um pacote de couve de Bruxelas.
5 dentes de alho bem socados.
Pimenta chinesa.
Creme de laranja.
Cogumelos.
Páprica doce.

Modo de preparar:
Na véspera pegue uma empregada limpinha, sem carteira assinada e ainda viva, mande ela se lavar e ficar de molho no creme de laranja. No dia seguinte, proceda ao abate da empregada, evitando macerar as partes que serão consumidas: a alcatra e o lombo. Frite os cogumelos e reserve. Tire a pele dos tomates amarelos e da empregada. (Atenção: não jogue fora a pele. Deixe secar e doe para um curso de artesanato.) Tempere com páprica doce, sal a gosto e pimenta chinesa, para dar um toque de mistério oriental ao prato. Bote numa panela grande, em fogo brando, e acrescente aos poucos água quente e os cogumelos. Espete com uma faca para ter certeza que a carne está ficando macia e que a empregada está morta (não se pode confiar nessa gentinha, se for romena então, hum!). Junte o alho bem socado (mande a empregada socá-lo antes de abatê-la). E nos últimos dez minutos de cozimento acrescente a couve de Bruxelas. Sirva com arroz soltinho e coma durante a novela. Dá para toda a família.

O chef Miklós Pörkölt é escritor e carne de pescoço.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

PATAVINA’S NEWS

- com Jean Prévert
nosso correspondente em Nova York -


Oi, Cesar,

Depois de um longo e tenebroso inferno, também conhecido como verão em Nova York, eis-me de volta à cidade. Saí do Morgan Library Museum, onde passei a manhã vendo iluminuras da Idade Média. Obras-primas produzidas pelo catolicismo, que você só julga capaz de exterminar dezenas de povos do Novo Mundo. Well, tô de altos, como a gente dizia brincando de pique em Quintino, subúrbio do Rio que você, garoto de Ipanema, talvez não conheça. Revejo o belo portão do Grand Central Terminal – essa porta de entrada da cidade – e já caminho por seus largos espaços à procura de um banco, onde já me sentei e comecei a batucar essas mal traçadas. Tenho notícias, meu caro. Vamos a elas?

Todos os jornais de escândalo da cidade não falam de outra coisa: John Kennedy não morreu! Isso mesmo que você está lendo. A nova teoria é a seguinte: Kennedy teria forjado a própria morte para fugir dos Estados Unidos com outro defunto famoso: ninguém menos que Marylin Monroe. (Eles não brincam em serviço, não é mesmo?) O casal teria se mandado num jatinho e estaria até hoje vivendo muito bem obrigado numa casa de campo às margens do Lago Van e sob as neves eternas do Monte Aratat, no interior da Turquia. Há fotos, ilegíveis o suficiente, é claro. Você já imaginou Marylin aos 84 anos cantando Happy Birthday dear presidente, para um Kennedy de 93 springs? Oh God!

Não sei se é para enfrentar a crise econômica, mas surgem novos empregos nesta paradisíaca ilha perdida bem em frente a esse país desagradável. O curador, essa figura paterna que tomou conta das artes plásticas e da grana que corre por lá, estica seus tentáculos a novas atividades. Sim, agora temos na cidade o curador para batizados, cirurgias e até para enterros. Com aqueles belos textos falando sobre os artistas, no caso bebês, doentes e mortos. Garantem as más línguas jornalísticas que daqui a pouco surgirá o curador para assassinatos. Quem viver – e portanto não for a vítima – verá.

Veja o que inventaram os desocupados de sempre (geniais desocupados). Pegaram Luzes da Cidade, uma das muitas obras primas de Chaplin, chamaram um mudo e pediram que ele fizesse leitura labial do que está sendo dito e não ouvimos, é claro, durante o filme. Pois bem, nas primeiras cenas Chaplin passa cantadas e mais cantadas em Virginia Cherril, que faz o papel da florista cega. Mas o tom vai mudando e ele acaba esculhambando com a atriz, dizendo que ela é péssima e que pensa em substituí-la. Pelo menos esta parte condiz com o que a história do cinema registra. Contam que Chaplin queria substituir Virginia por Georgia Hale, mas não teve dinheiro suficiente para isso.

Jean Prévert, de N. Y., para o Patavina’s.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

THE PATAVINA’S NEWS

De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.


Meu caro Cesar,

Já fiz meu passeio matinal pelo Central Park e agora, como sempre, me sento num daquelas bancos azuis e desconfortáveis da Grand Central, para ouvir o barulho dos trens chegando e partindo. Isso virou um hábito tão forte que agora só consigo escrever daqui. Mas não me esculhambe pelas minhas idiossincasias. Podia ser pior, eu podia ficar famoso e não dar entrevistas pra ninguém.

Abracadabraço do

Jean Prévert

N. YORK – Como acontece em todo começo de fevereiro, a Sotheby’s preparou seu famoso leilão de inverno escolhendo uma de suas peças mais raras para ficar em exibição na vitrine mais cara da cidade. Dessa vez o contemplado foi Vistas de Arles, Pomar em Flor, um óleo de 72 x 92 cm, que Van Gogh terminou de pintar na primavera de 1889. O que ninguém contava é que um mascarado conseguisse burlar toda a vigilância da Sotheby’s, invadisse a vitrine, esfaqueasse o quadro duas vezes e conseguisse fugir. A polícia de Nova York ainda não tinha nenhuma pista do agressor quando a própria Sotheby’s divulgou que o quadro esfaqueado era um estudo que Van Gogh realizou e não o quadro terminado. Temendo que algo assim acontecesse, a loja expôs o estudo e ficou com o quadro original guardado a sete chaves em seus cofres. Muito bem, o agressor foi ludibriado, o Van Gogh estava a salvo e à espera de seus milhões de dólares, caso resolvido... ou quase. Acontece que o agressor veio a público. E, para surpresa geral, trata-se da artista plástica Sophie Calle. Ela divulgou um manifesto em que defende seu gesto como uma intervenção na obra de Van Gogh, resgatando-a da morte nos museus e galerias para trazê-la de volta à vida artística. A polêmica se espalhou da delegacia e dos museus para o mundo dos artistas e curadores: é arte? É crime? Um pouquinho de cada coisa? O caso continua sem desfecho mas nesse fim de semana apresentou mais uma reviravolta. O original de Van Gogh está avaliado em 18 milhões de dólares. Mas o estudo, agora com a assinatura à faca de Sophie Calle, passou a valer 25 milhões. A Sotheby’s pretende leiloar as duas peças. E instalar um detector de metais na entrada do leilão.

VARANASI, ÍNDIA – O Sanãtama Dharma Futebol Clube – time de um templo hinduísta da cidade de Varanasi– foi disputar o título da terceira divisão do campeonato do Leste da Índia, o chamado Campeonato da Baía de Bengala. (Lá há tantos times, que os campeonatos são organizados por regiões.) Eles jogavam em casa e precisavam apenas do empate para a sua conquista inédita. Mas mesmo assim perderam por um a zero. Após a partida, o time não abandonou o estádio. Reunidos no meio de campo, ali permaneceram em meditação e orações. E deu resultado: no vídeo tape mostrado à noite pelas tevês, o Sanãtama conseguiu empatar o jogo quase no último minuto e se sagrou campeão. Após o vt, a cidade toda voltou para o estádio e lá comemoraram a conquista com cânticos e rezas até o amanhecer.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PATAVINA’S NEWS


De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.

Meu caro Cesar,

Para nós, meros ocidentais, desde pelo menos os gregos que a poesia e a lubricidade andam de mãos dadas. Mas convém não perder de vista que a poesia é uma representação da vida, da morte ou do ato de fazer vida, mas sempre representação, não substituindo o ato, seja ele qual for. Por isso a poesia erótica tem tanta função quanto qualquer poesia – ou seja nenhuma a não ser se estabelecer como arte.
Penso nisso e dedilho essas ideias mais uma vez sentado aqui na Grand Central Station de NY, com meu lap top ao colo e ouvindo chegarem e partirem os trens de hoje e dos ontens. E leio um poeta praticamente xará do teu blog: Patavina do Alcaçuz. Ele nasceu em 1939 na cidade de Alcaçuz, no sertão do Inhamuns, Ceará. E isso é bem perto de Assaré, a cidade natal de Patativa, de quem ele parece parodiar o nome, embora me negasse essa versão, em conversa que tivemos. Me garantiu sim que conheceu Patativa e até mesmo Zé Limeira. Mas negou conhecer João Cabral. Disse ainda que trabalhou na Marinha Mercante e assim teria rodado quase o mundo todo. Sua poesia vai se buscar e fazer na herança satírica que os romanos criaram e tantos portugueses deram continuidade (não foi, Bocage?). Estou organizando uma compilação de sua obra e fazendo um estudo dela e do poeta. Que tal você me arranjar um editor por aí? Enquanto isso, aí vai para você e seu Patavina’s em primeira mão a poesia fescenina de Patavina do Alcaçuz.

Abracadabraço do

Jean Prévert


O Poeta Patavina do Alcaçuz
Se Apresenta Ao Despeitável Público

o meu nome é patavina
não tenho outro de pica
como tem muito sacana
que gosta de uma futrica
deram de me chamar
de corno puto e marica
vagabundo e cachaceiro
pra me deixar titirica
mas o que essa gente diz
pra mim é tudo titica

sou vagabundo de fé
não vim ao mundo a trabalho
encho os córneos de pinga
e nunca que me embaralho
trepo com deus e o mundo
meu negócio é ser bandalho
pode ser homem ou mulher
eu me divirto e não falho
e se vierem os dois
aí mesmo é que eu me espalho

uma vez em petrolina
participei de uma orgia
começou de manhãzinha
e durou mais de dez dias
tinham oito freiras peladas
todas chamadas maria
três governador de estado
que baixaram enfermaria
e mais os rolling stones
animando a putaria

começamos a fudelança
lá pras bandas de minas
paramos em pirapora
pra enrabar dez albinas
no meio do são francisco
acabou-se a vaselina
mas chegamos a juazeiro
metendo por baixo e por cima
se a barca tivesse força
eu fudia até a china

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

PATAVINA’S NEWS



Nosso franco atirador Jean Prévert, diretamente de seu posto avançado em New York.

Le temps perdu / O tempo perdido

Devant la porte de l’usine / Em frente ao portão da fábrica
le travailleur soudant s’arrête / o operário para de repente
le beau temps l’a tiré par la veste / o tempo bom puxou-lhe pelo casaco
et comme il se retourne / e como ele se vira
et regarde le soleil / e olha o sol
tout rouge tout rond / bem vermelho bem redondo
il cligne de l’oeil / ele pisca o olho
familièrement / de um jeito familiar
Dis donc camarade Soleil / Diga lá camarada Sol
tu nes trouves pas / você não acha
que c’est plutôt con / uma puta esculhambação
de donner une journée pareille / dar um dia como esse
à um patron? / a um patrão?

Jaques Prévert


Oi, Cesar,

Estou mais uma vez sentado aqui na Grand Central Station, ouvindo os trens chegarem e partirem, tentando inutilmente reviver os bondes da infância, e te escrevendo. Me lembro bem quando meu pai escreveu o poema Le Temps Perdu, que eu traduzo canhestramente (convivendo com o inglês novaiorquino, esqueço o francês, desaprendo o português e vou acabar mudo). Eu cursava a quarta série e fazia um daqueles belos dias de junho. Estávamos só os dois em casa, minha mãe fora pra Nice cuidar de minha avó, que morreria dois meses depois. Ele me acordou, fez o café para nós dois, pôs o café na xícara, pôs o leite na xícara com café, pôs o açúcar e meia hora depois saímos para ele me deixar na escola. Eu tinha prova de matemática e comecei a ficar preocupado quando meu pai deu de cara com aquele dia de sol e resolver ir a pé. Foi batata, como vocês aí dizem (ou diziam, não sei bem): nos atrasamos e o portão da escola já estava fechado. Eu ensaiei um choro e meu pai começou ali mesmo a fazer o poema, primeiro me pondo para conversar com o sol e fazendo a voz e o jeito de andar do sol. Ele era um irresponsável bem divertido e eu esqueci da prova. E dali fomos para o centro, onde haveria uma passeata, não me lembro de quem e muito menos contra o quê. Lembro sim que chegamos na passeata e ele logo encontrou um amigo fotografando. Era simplesmente Robert Doisneau fazendo um ensaio sobre passeatas para a revista Life. Logo em seguida chegou Henri Cartier Bresson, os dois iam trabalhar juntos. Mas cada um a seu jeito, é claro. Então Henri, munido de uma inacreditável quantidade de filmes, tratou logo de se embrenhar no meio dos manifestantes, enquanto Doisneau e meu pai, munidos de uma sede também inacreditável embrenharam-se no bar da esquina e ali se puseram a conversar e beber copos e mais copos de vinho. Pediam sanduíches, davam o pão pros cachorros e comiam o recheio de pastrami com mostarda preta. O bar ficava na esquina por onde todo mundo chegava para a passeata e assim a mesa ia se enchendo, esvaziando e tornando a encher enquanto a passeata acontecia. Falou-se de tudo, de poesia à revolução, passando pela fabricação de guarda-chuvas e pelas vantagens ou desvantagens do sexo a três. Lá pelo meio da tarde, quando a passeata chegava ao fim (exatamente ali onde estávamos) Doisneau se lembrou do que viera fazer e saiu para fotografar. E meu pai misturou minha fracassada ida à escola com aquela manifestação, para dar a forma final ao poema Le Temps Perdu.

Patavinese-se e abracadabraço do

Jean Prévert

terça-feira, 25 de agosto de 2009

PATAVINA’S NEWS

De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.

Cesar,

Muita gripe suína aí no Rio? Aqui a onda ameaça voltar com as temperaturas caindo. Nada como o mundo contemporâneo, onde podemos partilhar as pragas e assim suplantar a luta de classes.

Fiz meu passeio matinal pelo Central Park e agora estou me instalando num dos bancos da Grand Central, de onde consiga ouvir o barulho dos trens chegando e partindo. Cada vez mais me isolo em pequenas partes de NY. Ou eu estou ficando velho ou esta cidade está ficando com a cara da Disney (ou mais provavelmente as duas coisas). Consegui um banco vazio, sentei-me, abri meu laptop e começo a escrever.

New Orleans - Cresce na cidade um novo comércio. Depois de festinhas de aniversário, funerais requintados e psicólogos de plantão, os cachorros de New Orleans têm agora a seu dispor clínicas de cirurgia plástica. Os desfiles de cães, que também crescem a olhos vistos, agora não são apenas para mostrar roupas e outros acessórios. Mostram-se as novas orelhas, os novos rabos, as bochechas esticadas e piercings aplicados em rostos, patas e até mamilos. Já está prometido para dezembro o Miss DogAmerica, o primeiro concurso de misses caninas para todo o país. E para o ano, a empresa promotora do evento promete o primeiro Miss DogUniverse. Eu, se fosse essa gente, não provocava tanto assim a ira divina. Eles já se esqueceram do Katrina?

Seul - Para que serve a poesia? Tentando dar novas respostas a essa pergunta surgiu na Coréia um autodenominado Grupo de Inter-In-Venção Poética. Eles acreditam que a poesia tem que sair dos livros e se relacionar diretamente com as pessoas. Sua primeira inter-in-venção poética aconteceu semana passada, no feriado nacional da Coréia. Na noite anterior, os poetas foram às três maiores rodovias que saem de Seul e trocaram as placas de trânsito que indicam as direções para as cidades mais próximas. O resultado foi um gigantesco engarrafamento que levou praticamente o dia todo para ser desfeito. Os poetas acreditam que a desorientação é uma vivência poética que eles possibilitaram a milhões de pessoas. Uma inter-in-venção. Pode até ser mas a polícia coreana está atrás deles. Por enquanto o grupo diz que não se intimida e promete novas inter-in-venções.

E segue o e mail, Cesar. Patavine-se!

Abracadabraço do

Jean Prévert

quinta-feira, 23 de julho de 2009

PATAVINA’S NEWS

O Patavina’s News se dá ao luxo de ter um correspondente internacional. Diretamente de seu quarto e sala na Rue de Feaubourg, meu amigo Jean Prévert, filho do famoso poeta Jacques Prévert e meu ex-aluno de língua portuguesa no inverno parisiense, manda notícias do planeta para este blog. Obrigado, Jean. A casa é virtual mas é sua.

O UNIVERSO É LOGO ALI
Jean Prévert- correspondente internacional

Chicago. As funerárias dessa cidade enfumaçada e falida, com as indústrias fechando as portas com a crise, descobriram um novo filão para seus negócios. Já há algum tempo elas filmam os enterros que “promovem” e vendem o filme para as famílias. E a coisa funcionou tão bem que praticamente todas têm seu cineasta de plantão. Mas agora elas deram um passo adiante. Para quem acredita na vida após a morte, os papa-defuntos oferecem um caixão com tevê. Isso mesmo: uma mini–tevê, como a que podemos ter em nossos automóveis e transmitindo mais de 100 canais. Basta o morto – ainda em vida, é claro – deixar em seu testamento a programação que gostaria de assistir e a funerária se encarrega de colocá-la no ar, pelo tempo contratado, atendendo a esse estranho e último pedido.

Ondurman. A mais populosa cidade do Sudão foi sacudida por três atentados em apenas uma semana. Atentados sem explosões nem vítimas em massa, como os deste mês nos hotéis da Indonésia. Mas de qualquer forma as ações terroristas caíram como bombas nessa terra já tão devastada por guerras civis. Num país onde anualmente se pratica a extirpação de clitóris em centenas de mulheres, um grupo terrorista auto-denominado Dente por Dente levou a frase bíblica às últimas consequências, sequestrou três autoridades locais, todas do sexo masculino, e procedeu à devida extirpação dos testículos de seus prisioneiros. O grupo promete seguir aplicando em autoridades masculinas sua política de, digamos, olho por olho, para não entrarmos em detalhes técnicos, enquanto existir no país a extirpação dos clitóris.