segunda-feira, 19 de setembro de 2011
PATAVINA’S NEWS
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
PATAVINA’S NEWS
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
PATAVINA’S NEWS
nosso correspondente em Nova York -
Oi, Cesar,
Depois de um longo e tenebroso inferno, também conhecido como verão em Nova York, eis-me de volta à cidade. Saí do Morgan Library Museum, onde passei a manhã vendo iluminuras da Idade Média. Obras-primas produzidas pelo catolicismo, que você só julga capaz de exterminar dezenas de povos do Novo Mundo. Well, tô de altos, como a gente dizia brincando de pique em Quintino, subúrbio do Rio que você, garoto de Ipanema, talvez não conheça. Revejo o belo portão do Grand Central Terminal – essa porta de entrada da cidade – e já caminho por seus largos espaços à procura de um banco, onde já me sentei e comecei a batucar essas mal traçadas. Tenho notícias, meu caro. Vamos a elas?
Todos os jornais de escândalo da cidade não falam de outra coisa: John Kennedy não morreu! Isso mesmo que você está lendo. A nova teoria é a seguinte: Kennedy teria forjado a própria morte para fugir dos Estados Unidos com outro defunto famoso: ninguém menos que Marylin Monroe. (Eles não brincam em serviço, não é mesmo?) O casal teria se mandado num jatinho e estaria até hoje vivendo muito bem obrigado numa casa de campo às margens do Lago Van e sob as neves eternas do Monte Aratat, no interior da Turquia. Há fotos, ilegíveis o suficiente, é claro. Você já imaginou Marylin aos 84 anos cantando Happy Birthday dear presidente, para um Kennedy de 93 springs? Oh God!
Não sei se é para enfrentar a crise econômica, mas surgem novos empregos nesta paradisíaca ilha perdida bem em frente a esse país desagradável. O curador, essa figura paterna que tomou conta das artes plásticas e da grana que corre por lá, estica seus tentáculos a novas atividades. Sim, agora temos na cidade o curador para batizados, cirurgias e até para enterros. Com aqueles belos textos falando sobre os artistas, no caso bebês, doentes e mortos. Garantem as más línguas jornalísticas que daqui a pouco surgirá o curador para assassinatos. Quem viver – e portanto não for a vítima – verá.
Veja o que inventaram os desocupados de sempre (geniais desocupados). Pegaram Luzes da Cidade, uma das muitas obras primas de Chaplin, chamaram um mudo e pediram que ele fizesse leitura labial do que está sendo dito e não ouvimos, é claro, durante o filme. Pois bem, nas primeiras cenas Chaplin passa cantadas e mais cantadas em Virginia Cherril, que faz o papel da florista cega. Mas o tom vai mudando e ele acaba esculhambando com a atriz, dizendo que ela é péssima e que pensa em substituí-la. Pelo menos esta parte condiz com o que a história do cinema registra. Contam que Chaplin queria substituir Virginia por Georgia Hale, mas não teve dinheiro suficiente para isso.
Jean Prévert, de N. Y., para o Patavina’s.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
THE PATAVINA’S NEWS
Meu caro Cesar,
Já fiz meu passeio matinal pelo Central Park e agora, como sempre, me sento num daquelas bancos azuis e desconfortáveis da Grand Central, para ouvir o barulho dos trens chegando e partindo. Isso virou um hábito tão forte que agora só consigo escrever daqui. Mas não me esculhambe pelas minhas idiossincasias. Podia ser pior, eu podia ficar famoso e não dar entrevistas pra ninguém.
Abracadabraço do
Jean Prévert
N. YORK – Como acontece em todo começo de fevereiro, a Sotheby’s preparou seu famoso leilão de inverno escolhendo uma de suas peças mais raras para ficar em exibição na vitrine mais cara da cidade. Dessa vez o contemplado foi Vistas de Arles, Pomar em Flor, um óleo de 72 x 92 cm, que Van Gogh terminou de pintar na primavera de 1889. O que ninguém contava é que um mascarado conseguisse burlar toda a vigilância da Sotheby’s, invadisse a vitrine, esfaqueasse o quadro duas vezes e conseguisse fugir. A polícia de Nova York ainda não tinha nenhuma pista do agressor quando a própria Sotheby’s divulgou que o quadro esfaqueado era um estudo que Van Gogh realizou e não o quadro terminado. Temendo que algo assim acontecesse, a loja expôs o estudo e ficou com o quadro original guardado a sete chaves em seus cofres. Muito bem, o agressor foi ludibriado, o Van Gogh estava a salvo e à espera de seus milhões de dólares, caso resolvido... ou quase. Acontece que o agressor veio a público. E, para surpresa geral, trata-se da artista plástica Sophie Calle. Ela divulgou um manifesto em que defende seu gesto como uma intervenção na obra de Van Gogh, resgatando-a da morte nos museus e galerias para trazê-la de volta à vida artística. A polêmica se espalhou da delegacia e dos museus para o mundo dos artistas e curadores: é arte? É crime? Um pouquinho de cada coisa? O caso continua sem desfecho mas nesse fim de semana apresentou mais uma reviravolta. O original de Van Gogh está avaliado em 18 milhões de dólares. Mas o estudo, agora com a assinatura à faca de Sophie Calle, passou a valer 25 milhões. A Sotheby’s pretende leiloar as duas peças. E instalar um detector de metais na entrada do leilão.
VARANASI, ÍNDIA – O Sanãtama Dharma Futebol Clube – time de um templo hinduísta da cidade de Varanasi– foi disputar o título da terceira divisão do campeonato do Leste da Índia, o chamado Campeonato da Baía de Bengala. (Lá há tantos times, que os campeonatos são organizados por regiões.) Eles jogavam em casa e precisavam apenas do empate para a sua conquista inédita. Mas mesmo assim perderam por um a zero. Após a partida, o time não abandonou o estádio. Reunidos no meio de campo, ali permaneceram em meditação e orações. E deu resultado: no vídeo tape mostrado à noite pelas tevês, o Sanãtama conseguiu empatar o jogo quase no último minuto e se sagrou campeão. Após o vt, a cidade toda voltou para o estádio e lá comemoraram a conquista com cânticos e rezas até o amanhecer.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
PATAVINA’S NEWS
De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.
Meu caro Cesar,
Para nós, meros ocidentais, desde pelo menos os gregos que a poesia e a lubricidade andam de mãos dadas. Mas convém não perder de vista que a poesia é uma representação da vida, da morte ou do ato de fazer vida, mas sempre representação, não substituindo o ato, seja ele qual for. Por isso a poesia erótica tem tanta função quanto qualquer poesia – ou seja nenhuma a não ser se estabelecer como arte.
Penso nisso e dedilho essas ideias mais uma vez sentado aqui na Grand Central Station de NY, com meu lap top ao colo e ouvindo chegarem e partirem os trens de hoje e dos ontens. E leio um poeta praticamente xará do teu blog: Patavina do Alcaçuz. Ele nasceu em 1939 na cidade de Alcaçuz, no sertão do Inhamuns, Ceará. E isso é bem perto de Assaré, a cidade natal de Patativa, de quem ele parece parodiar o nome, embora me negasse essa versão, em conversa que tivemos. Me garantiu sim que conheceu Patativa e até mesmo Zé Limeira. Mas negou conhecer João Cabral. Disse ainda que trabalhou na Marinha Mercante e assim teria rodado quase o mundo todo. Sua poesia vai se buscar e fazer na herança satírica que os romanos criaram e tantos portugueses deram continuidade (não foi, Bocage?). Estou organizando uma compilação de sua obra e fazendo um estudo dela e do poeta. Que tal você me arranjar um editor por aí? Enquanto isso, aí vai para você e seu Patavina’s em primeira mão a poesia fescenina de Patavina do Alcaçuz.
Abracadabraço do
Jean Prévert
O Poeta Patavina do Alcaçuz
Se Apresenta Ao Despeitável Público
o meu nome é patavina
não tenho outro de pica
como tem muito sacana
que gosta de uma futrica
deram de me chamar
de corno puto e marica
vagabundo e cachaceiro
pra me deixar titirica
mas o que essa gente diz
pra mim é tudo titica
sou vagabundo de fé
não vim ao mundo a trabalho
encho os córneos de pinga
e nunca que me embaralho
trepo com deus e o mundo
meu negócio é ser bandalho
pode ser homem ou mulher
eu me divirto e não falho
e se vierem os dois
aí mesmo é que eu me espalho
uma vez em petrolina
participei de uma orgia
começou de manhãzinha
e durou mais de dez dias
tinham oito freiras peladas
todas chamadas maria
três governador de estado
que baixaram enfermaria
e mais os rolling stones
animando a putaria
começamos a fudelança
lá pras bandas de minas
paramos em pirapora
pra enrabar dez albinas
no meio do são francisco
acabou-se a vaselina
mas chegamos a juazeiro
metendo por baixo e por cima
se a barca tivesse força
eu fudia até a china
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
PATAVINA’S NEWS
Nosso franco atirador Jean Prévert, diretamente de seu posto avançado em New York.
Le temps perdu / O tempo perdido
Devant la porte de l’usine / Em frente ao portão da fábrica
le travailleur soudant s’arrête / o operário para de repente
le beau temps l’a tiré par la veste / o tempo bom puxou-lhe pelo casaco
et comme il se retourne / e como ele se vira
et regarde le soleil / e olha o sol
tout rouge tout rond / bem vermelho bem redondo
il cligne de l’oeil / ele pisca o olho
familièrement / de um jeito familiar
Dis donc camarade Soleil / Diga lá camarada Sol
tu nes trouves pas / você não acha
que c’est plutôt con / uma puta esculhambação
de donner une journée pareille / dar um dia como esse
à um patron? / a um patrão?
Jaques Prévert
Oi, Cesar,
Estou mais uma vez sentado aqui na Grand Central Station, ouvindo os trens chegarem e partirem, tentando inutilmente reviver os bondes da infância, e te escrevendo. Me lembro bem quando meu pai escreveu o poema Le Temps Perdu, que eu traduzo canhestramente (convivendo com o inglês novaiorquino, esqueço o francês, desaprendo o português e vou acabar mudo). Eu cursava a quarta série e fazia um daqueles belos dias de junho. Estávamos só os dois em casa, minha mãe fora pra Nice cuidar de minha avó, que morreria dois meses depois. Ele me acordou, fez o café para nós dois, pôs o café na xícara, pôs o leite na xícara com café, pôs o açúcar e meia hora depois saímos para ele me deixar na escola. Eu tinha prova de matemática e comecei a ficar preocupado quando meu pai deu de cara com aquele dia de sol e resolver ir a pé. Foi batata, como vocês aí dizem (ou diziam, não sei bem): nos atrasamos e o portão da escola já estava fechado. Eu ensaiei um choro e meu pai começou ali mesmo a fazer o poema, primeiro me pondo para conversar com o sol e fazendo a voz e o jeito de andar do sol. Ele era um irresponsável bem divertido e eu esqueci da prova. E dali fomos para o centro, onde haveria uma passeata, não me lembro de quem e muito menos contra o quê. Lembro sim que chegamos na passeata e ele logo encontrou um amigo fotografando. Era simplesmente Robert Doisneau fazendo um ensaio sobre passeatas para a revista Life. Logo em seguida chegou Henri Cartier Bresson, os dois iam trabalhar juntos. Mas cada um a seu jeito, é claro. Então Henri, munido de uma inacreditável quantidade de filmes, tratou logo de se embrenhar no meio dos manifestantes, enquanto Doisneau e meu pai, munidos de uma sede também inacreditável embrenharam-se no bar da esquina e ali se puseram a conversar e beber copos e mais copos de vinho. Pediam sanduíches, davam o pão pros cachorros e comiam o recheio de pastrami com mostarda preta. O bar ficava na esquina por onde todo mundo chegava para a passeata e assim a mesa ia se enchendo, esvaziando e tornando a encher enquanto a passeata acontecia. Falou-se de tudo, de poesia à revolução, passando pela fabricação de guarda-chuvas e pelas vantagens ou desvantagens do sexo a três. Lá pelo meio da tarde, quando a passeata chegava ao fim (exatamente ali onde estávamos) Doisneau se lembrou do que viera fazer e saiu para fotografar. E meu pai misturou minha fracassada ida à escola com aquela manifestação, para dar a forma final ao poema Le Temps Perdu.
Patavinese-se e abracadabraço do
Jean Prévert
terça-feira, 25 de agosto de 2009
PATAVINA’S NEWS
De Nova York, nosso correspondente, franco e atirador, Jean Prévert.
Cesar,
Muita gripe suína aí no Rio? Aqui a onda ameaça voltar com as temperaturas caindo. Nada como o mundo contemporâneo, onde podemos partilhar as pragas e assim suplantar a luta de classes.
Fiz meu passeio matinal pelo Central Park e agora estou me instalando num dos bancos da Grand Central, de onde consiga ouvir o barulho dos trens chegando e partindo. Cada vez mais me isolo em pequenas partes de NY. Ou eu estou ficando velho ou esta cidade está ficando com a cara da Disney (ou mais provavelmente as duas coisas). Consegui um banco vazio, sentei-me, abri meu laptop e começo a escrever.
New Orleans - Cresce na cidade um novo comércio. Depois de festinhas de aniversário, funerais requintados e psicólogos de plantão, os cachorros de New Orleans têm agora a seu dispor clínicas de cirurgia plástica. Os desfiles de cães, que também crescem a olhos vistos, agora não são apenas para mostrar roupas e outros acessórios. Mostram-se as novas orelhas, os novos rabos, as bochechas esticadas e piercings aplicados em rostos, patas e até mamilos. Já está prometido para dezembro o Miss DogAmerica, o primeiro concurso de misses caninas para todo o país. E para o ano, a empresa promotora do evento promete o primeiro Miss DogUniverse. Eu, se fosse essa gente, não provocava tanto assim a ira divina. Eles já se esqueceram do Katrina?
Seul - Para que serve a poesia? Tentando dar novas respostas a essa pergunta surgiu na Coréia um autodenominado Grupo de Inter-In-Venção Poética. Eles acreditam que a poesia tem que sair dos livros e se relacionar diretamente com as pessoas. Sua primeira inter-in-venção poética aconteceu semana passada, no feriado nacional da Coréia. Na noite anterior, os poetas foram às três maiores rodovias que saem de Seul e trocaram as placas de trânsito que indicam as direções para as cidades mais próximas. O resultado foi um gigantesco engarrafamento que levou praticamente o dia todo para ser desfeito. Os poetas acreditam que a desorientação é uma vivência poética que eles possibilitaram a milhões de pessoas. Uma inter-in-venção. Pode até ser mas a polícia coreana está atrás deles. Por enquanto o grupo diz que não se intimida e promete novas inter-in-venções.
E segue o e mail, Cesar. Patavine-se!
Abracadabraço do
Jean Prévert
quinta-feira, 23 de julho de 2009
PATAVINA’S NEWS
O UNIVERSO É LOGO ALI
Jean Prévert- correspondente internacional
Chicago. As funerárias dessa cidade enfumaçada e falida, com as indústrias fechando as portas com a crise, descobriram um novo filão para seus negócios. Já há algum tempo elas filmam os enterros que “promovem” e vendem o filme para as famílias. E a coisa funcionou tão bem que praticamente todas têm seu cineasta de plantão. Mas agora elas deram um passo adiante. Para quem acredita na vida após a morte, os papa-defuntos oferecem um caixão com tevê. Isso mesmo: uma mini–tevê, como a que podemos ter em nossos automóveis e transmitindo mais de 100 canais. Basta o morto – ainda em vida, é claro – deixar em seu testamento a programação que gostaria de assistir e a funerária se encarrega de colocá-la no ar, pelo tempo contratado, atendendo a esse estranho e último pedido.
Ondurman. A mais populosa cidade do Sudão foi sacudida por três atentados em apenas uma semana. Atentados sem explosões nem vítimas em massa, como os deste mês nos hotéis da Indonésia. Mas de qualquer forma as ações terroristas caíram como bombas nessa terra já tão devastada por guerras civis. Num país onde anualmente se pratica a extirpação de clitóris em centenas de mulheres, um grupo terrorista auto-denominado Dente por Dente levou a frase bíblica às últimas consequências, sequestrou três autoridades locais, todas do sexo masculino, e procedeu à devida extirpação dos testículos de seus prisioneiros. O grupo promete seguir aplicando em autoridades masculinas sua política de, digamos, olho por olho, para não entrarmos em detalhes técnicos, enquanto existir no país a extirpação dos clitóris.